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domingo, dezembro 30, 2007

DOIS ARTIGOS ESCLARECEDORES SOBRE O PAQUISTAO, E SOBRE A POLITICA EXTERNA DE G. W. BUSH

FOLHA DE SÃO PAULO

São Paulo, domingo, 30 de dezembro de 2007

ARTIGO

Paquistão expõe fracasso da estratégia americana

Ditadores militares que tiveram apoio dos EUA semearam radicalismo islâmico

AZIZ HUQ

DA "NATION"
Não seria necessário dizer que a morte de qualquer ser humano é uma tragédia. Mas o assassinato da antiga primeira-ministra paquistanesa Benazir Bhutto e de mais de uma dúzia de pessoas, em Liaquat Bagh, Rawalpindi, traz ecos da violenta história paquistanesa, serve como presságio de novos atos violentos e indica que um país orgulhoso se verá arremessado ao caos. O atentado também sinaliza a manifesta bancarrota da política de combate ao terrorismo adotada pelo governo Bush na região. 

Foi em Liaquat Bagh que o segundo premiê paquistanês, Liaquat Ali Khan, foi assassinado em um comício, em outubro de 1951. Quatro anos depois, a lei marcial seria decretada pela primeira vez, antes que a primeira Constituição do país fosse promulgada. E foi nas imediações do local do atentado de quinta-feira em Liaquat Bagh, na prisão central de Rawalpindi, que o pai de Benazir, Zulfiqar Ali Bhutto, foi executado por enforcamento, às 2h do dia 4 de abril de 1979. 

Execuções eram usualmente realizadas ao raiar do dia, mas o governo militar desejava evitar protestos públicos. Como sua filha, Bhutto foi premiê do Paquistão pela via eleitoral. De fato, foi ele que promoveu a relativamente limpa eleição paquistanesa de março de 1977, e teve sua vitória roubada por um golpe militar comandado por um antigo amigo e aliado, o general de Exército Zia-ul-Haq. Ironicamente, Zia desferiu seu golpe, que contava com o apoio dos EUA, na noite de 4 de julho de 1977 [data da independência americana]. 

Mulás e metralhadoras

Como o generalíssimo Pervez Musharraf, que hoje governa com apoio norte-americano, Zia dependia dos mulás e das metralhadoras fornecidas pelos aliados para compensar a falta de democracia. Graças ao papel de intermediação exercido pelo ISI, o serviço secreto paquistanês, na guerra dos mujahedin afegãos contra as forças de ocupação soviéticas, Zia continuou contando com o apoio de Washington mesmo depois de adiar eleições, perseguir o Judiciário e elevar as facções religiosas à condição de protagonistas da vida política nacional. Pois foi Zia que criou o primeiro tribunal baseado na Sharia, a lei tradicional muçulmana, bem como um conselho nacional conhecido como Majlis-e-Shoora, cujo objetivo seria presidir sobre seu conceito de "democracia islâmica". Quando morreu, em agosto de 1988, Zia legou um panorama que a cientista política Ayesha Jalal descreve como "subserviente, fragmentado, corrupto, e violento", um sistema político que, aparentemente, continuou a merecer a fiel adesão de seus aliados americanos até a extinção. A situação parece familiar? 
Pois é. Em seus anos como presidente e comandante do Exército, Musharraf gradualmente reduziu o espaço político do PPP, o partido dos Bhutto, e do PLM-N, de Nawaz Sharif, e impôs pressão sobre a imprensa paquistanesa ferozmente independente. O presidente preferiu depender de uma aliança de seis partidos islâmicos conhecida como Muttahida Majlis-e-Amal (MMA), que hoje governa duas das quatro unidades federativas, o Baluquistão e a Província da Fronteira Noroeste. 

Nos últimos 12 meses, ele voltou a subjugar o Judiciário, expurgando juízes independentes. E, durante seu governo, a ditadura militar ampliou seu alcance, estendendo tentáculos por porções cada vez maiores da economia, do setor de construção aos cereais matutinos. Hoje, a analista militar Ayesha Sideqque estima que os cinco conglomerados, ou "fundações de bem-estar", que operam sob o controle das Forças Armadas controlem ativos econômicos de cerca de US$ 20 bilhões. Essa influência sobre a vida econômica do país significa que os militares têm um grande e constante interesse em controlar o processo político. Apesar dos lamentos populares, ninguém acredita de verdade que Benazir pudesse vir a representar uma figura redentora. Em lugar disso, ela representava uma conexão histórica com aquele breve momento de democracia em meio à história paquistanesa, que vem transcorrendo sob domínio militar quase constante. Desde 1955, o Paquistão vem sendo governado por generais, com curtos intervalos de domínio civil.

AZIZ HUQ é diretor do projeto de liberdade e segurança nacional do Centro de Justiça Brennan, da Universidade de Nova York, e co-autor de "Unchecked and Unbalanced: Presidential Power in a Time of Terror" (Sem controle e desbalanceado: o poder presidencial em tempo de terror)

Sem Benazir, militares devem reforçar ligações com radicais
AZIZ HUQ

A morte de uma importante líder oposicionista facilitará a Pervez Musharraf a criação de uma coalizão parlamentar que aja de acordo com seus desejos, se forem realizadas as eleições previstas para janeiro. E também torna mais distante a possibilidade de eleições que não sejam manipuladas, e de líderes que respondam ao povo, e não aos seus comandantes uniformizados. Além disso, agora é ainda mais difícil que os militares paquistaneses abandonem seu relacionamento simbiótico com a linha dura religiosa, nas urnas e nas ruas. Minha aspiração e esperança de democracia no Paquistão não é um sonho romântico. Em lugar disso, a democracia paquistanesa representa a melhor esperança de redimir o desastre que o Paquistão veio a se tornar para a política de segurança nacional dos EUA. 

Não deveria escapar à atenção de ninguém que Musharraf até o momento vem dependendo abertamente do Jamiat Ulema-e-Islam (JUI), um partido religioso favorável ao Taleban, especialmente na Província do Baluquistão. Muitas reportagens consistentes e plausíveis identificaram a região como o local de refúgio de líderes importantes da Al Qaeda, a exemplo de Osama bin Laden, que podem confiar no apoio de líderes tribais e religiosos simpáticos à sua causa. Musharraf depende, para sua sobrevivência política, de facções políticas no mínimo simpáticas ao maior inimigo dos Estados Unidos, e possivelmente culpadas de cumplicidade com o terrorismo. Em meio ao lodaçal da política interna paquistanesa, o amigo de nosso amigo pode bem ser nosso inimigo. Bush vem apoiando um líder militar que, embora alegue ter contido os religiosos militantes, depende dele para seu sucesso nas urnas. 

Espiões e Al Qaeda

Sem democracia, porém, não existe a mais remota possibilidade de romper esse elo fatal e de remover o refúgio da liderança da Al Qaeda. Sem democracia, há escassas chances de que os líderes tribais e religiosos que oferecem proteção estratégica ao Taleban sejam conquistados como aliados. Sem democracia, não há chance de uma reforma das madrassas, que não só formam "mártires" para a Caxemira e o Afeganistão como ajudam e reconfortam o pequeno número de muçulmanos ocidentais que desejam justificar a violência. Um agravante é a incompetência americana. Como no Iraque, bilhões de dólares em assistência foram desperdiçados por incompetência e descuido, e por isso o Exército paquistanês continua incapaz ou pouco disposto a invadir as áreas de refúgio do Taleban. Pior, não existe plano alternativo em vista. Sob a tutela dos EUA, os militares paquistaneses engordaram e se tornaram ainda mais toscos. 

A política do governo Bush para o Paquistão constitui, em resumo, um desastre. Como de hábito, a Casa Branca presumiu que força militar -no caso exercida por um Estado vassalo- seria capaz de restringir o terrorismo. Como de hábito, os líderes americanos fracassaram em compreender relacionamentos complexos, no caso o elo entre a ISI [agência de espionagem paquistanesa] e a Al Qaeda, que remonta à guerra soviética do Afeganistão, e a maneira pela qual a corrupção e a inclinação cada vez maior a uma política de base religiosa conduzem mais e mais pessoas a aderir à ideologia maniqueísta de nossos inimigos. 

Estados falidos

A política do governo americano para o Paquistão é pior que um desastre. Ela está fomentando a erosão do limitado sucesso conquistado no Afeganistão. Está alimentando a propaganda de que os EUA apóiam tiranos. E está impedindo a realização do objetivo de longo prazo: um Paquistão que não sirva de refúgio a terroristas ou campo de treinamento para recrutas do Ocidente. A morte de Benazir Bhutto prova que o governo Bush se colocou em uma situação sem saída. Além da repetição cruel da trágica história paquistanesa, a morte de Benazir deveria servir como marco das dimensões do fracasso do governo Bush na região. Porque, em 12 de setembro de 2001, existia um Estado falido, o Afeganistão, que poderia servir de refúgio a terroristas. Agora, as políticas do governo americano criaram dois novos Estados em falência, que não só podem como provavelmente vão sustentar atividades terroristas no futuro.

Tradução de PAULO MIGLIACCI

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