quinta-feira, dezembro 04, 2008

O cinqüentenário de um Nobel da Paz: Pe. Dominique Pire, OP

Domingos Zamagna (*)

No momento em que o noticiário brasileiro nos mostra a situação de penúria dos catarinenses, dos nortefluminenses e capixabas, nos damos conta da importância da solidariedade. As notícias que chegam da Europa não são alentadoras para os estrangeiros, com preocupantes casos de racismo xenofobia. O mundo vai comemorar mais um Natal ainda banhado em sangue, com dezenas de focos de guerra.
Por outro lado, a eleição do primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos é interpretada como sinal de superação de intolerância e melhor convivência entre os povos.
Há exatamente 50 anos, no dia 10 de dezembro de 1958, no grande salão da Universidade de Oslo, o Pe. Dominique Pire (nascido Georges Charles Clement Ghislain Pire), religioso dominicano belga, recebia o Prêmio Nobel da Paz, das mãos do rei Olavo e da princesa Astrid.
Que jovem brasileiro já ouviu falar de Dominique Pire? O que fez ele para merecer um Nobel?
Gunnar Jahn, presidente do Comitê Nobel do Parlamento norueguês , assim justificou a concessão do prêmio: “O trabalho do Pe. Pire em favor dos refugiados é uma ação empreendida para curar as feridas da guerra, para construir um feixe de luz e de amor, bem acima das vagas do colonialismo e da oposição entre raças; uma ação que favorece o desenvolvimento do espírito de fraternidade entre os homens e os povos.”
De fato, as feridas da segunda guerra mundial, abertas antes mesmo que as da guerra anterior estivessem cicatrizadas, demoravam para serem curadas. A maior catástrofe provocada pelo ser humano, envolvendo direta ou indiretamente 72 países dos cinco continentes, deixou um saldo de mais de cinqüenta milhões de mortos, trinta milhões de mutilados e um incontável número de lares desfeitos e refugiados.
Foi para ao menos aliviar tanto sofrimento que este simples frade, munido apenas de forças morais, a partir de 1949 entregou-se de corpo e alma ao trabalho com os refugiados e deslocados de guerra. Fundou a “Europe du Coeur au Service du Monde”, construindo uma série de campos para refugiados, sem qualquer tipo de discriminação, coisa aliás que não chegou a ser bem vista por alguns de seus contemporâneos, numa época em que ainda pairava sobre o mundo o espírito da vindita.
Vestido com o hábito branco dos filhos de São Domingos que outrora, infelizmente, também fora símbolo dos inquisidores, estava ele ali, entre políticos, artistas, cientistas e sábios, como a testemunhar que os tempos já eram outros – sem ostentar títulos, nem mesmo o de “teólogo da libertação” – pois se apresentava apenas como seguidor e missionário de Jesus Nazareno, que passou sua vida construindo o bem e a paz. Agradeceu ao rei e aos noruegueses tamanha honraria, mas com humildade preferiu ver nela apenas um estímulo para prosseguir seu trabalho. Num gesto concreto de solidariedade, aplicou a grande soma correspondente ao prêmio à construção de obras assistenciais: o “Village Fridtjof Nansen” e o “Village Anne Frank”, na periferia de Bruxelas. Mais tarde, fundará a Universidade da Paz, que existe até hoje em Namur, destinada a promover o entendimento e a concórdia entre os povos, reconhecido centro de formação para prevenção e gestão positiva de conflitos. Construirá uma rede de proteção social conhecida como “Îles de la Paix”, uma ONG para o desenvolvimento de populações rurais de países pobres, a começar pelo Bangladesh e a Índia, mas também na África e América Latina. Muitas outras iniciativas de paz foram empreendidas pelo Pe. Pire, até sua morte em Louvain, em 1968.
Para o bem, e para o mal, o final da década de 50 foi um tempo paradigmático. Se, de um lado, tivemos a invasão da Hungria pelas tropas soviéticas, ou se foi quando começou a corrida espacial, de outro lado Giorgio La Pira transformou Florença num foco de irenismo para o Mediterrâneo, foram assinados os Tratados de Roma de 1957 (constitutivos do que viria a ser a União Européia). Sem alarde, com gestos simples, mas bem concretos, Dominique Pire mostrou-nos que a paz é um bem precioso demais para ser entregue apenas aos cuidados dos políticos e diplomatas. Cada ser humano, se for apaixonado por ela, há de se tornar um artesão da paz. Um bom exemplo a ser lembrado como síntese de um novo patamar de convivência pacífica é a figura de João XXIII, infatigável trabalhador pelo banimento da violência e pelo entendimento entre as religiões e os povos (convocou o Concílio Ecumênico em 25/1/59) em plena época de guerra fria, inclusive legando-nos uma das mais belas encíclicas da história da Igreja, a “Pacem in Terris”.
No cinqüentenário da premiação do Pe. Pire com o Nobel da Paz, todos os que se preocupam com a construção de um mundo novo, de justiça, solidariedade e paz, cumprimos o alegre dever de evocar o seu luminoso exemplo e homenageá-lo com gratidão.


(*) Jornalista e professor de Filosofia.

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