Comentário: caro Ralph J. Hofmann: censura, é o termo. Lembro perfeitamente da época em que havia "imprensa alternativa" de esquerda. Primeiro, ela nada alternava quanto ao conteúdo e aos métodos. Segundo, nela a censura era virulenta. Tive muitos artigos censurados por pessoas que, antes ou depois (note bem!) me pediam colaboração. Colaboração....direcionada pela "linha" do folículo de esquerda. E certos temas ou campos eram proibidos porque "reacionários", "burgueses", "contra nós", etc. Não era imprensa alternativa, mas nela havia o desejo e a ordem de fazer propaganda, sem o outro lado. A "conquista" do corporativo diploma, ajudou a potenciar a censura interna corporis na esquerda, o que também foi potenciado pela cornucópia de propaganda, agora diretamente, de empresas estatais nos "alternativos" que nada alternam.
Censura, caro Ralph, censura. Afinal, quem disse mesmo que eles algum dia leram o jovem crítico da censura chamado Karl Marx. Aliás, eles algum dia leram algo mais extenso do que os testículos com as palavras de ordem do Partido ou do seu Líder?
RR
Banana e os Jornalistas
Por Ralph J. Hofmann
Banana (para os que não lêm P&P codinome de um cara que sempre critica o direito dos colaboradores do Blog de apresentarem suas opiniões) colocou as manguinhas de fora. Dá a entender que a Adriana não pode entrevistar Roberto Romano por não estar habilitada para tal. (Roberto Romano deu a entrevista com prazer).Por mais de 130 anos de Brasil como país houve jornalistas, editores e articulistas sem que houvesse escolas de jornalismo. E houve jornalistas excepcionais.
Na maioria dos outros países o diploma de jornalista é um requinte. Não garante acesso à função meramente devido à sua posse. Aliás, a maior parte dos jornalistas estudou outra coisa. Mas a Adriana é Editora de um Blog. Portanto nem sequer a lei desnecessária e deplorável sobre o cartório dos jornalistas impede que ela entreviste quem quer que seja e publique a entrevista. Aliás, faça um recenseamento entre o pessoal de TV. Quantos comentaristas, entrevistadores são Jornalistas. Jô Soares que eu saiba é ator. Adriana Galisteu, metade dos comentaristas esportivos.
A maioria dos primeiros professores das escolas de jornalismo ou eram advogados ou tinham ascendido na carreira a partir de “foca” ou locutor de rádio até chegarem a cargos mais responsáveis.O Banana amanhã vai exigir que não se publiquem livros se não forem escritos em parceria com um escritor formado em faculdade e aprovado em prova da OAuB (Ordem dos Autores do Brasil).Minhas desculpas e respeitos aos jornalistas formados e bem sucedidos. Fizeram bem em estudar, e certamente já sabiam que queriam ser jornalistas, e tinham talento.
Roberto Romano Moral e Ciência. A monstruosidade no sec. XVIII
Silence et Bruit. Roberto Romano
terça-feira, abril 01, 2008
segunda-feira, março 31, 2008
Jornal Tribuna de Santos
Entrevista: Celso Lungaretti
Jornalista, escritor, ex-militante da VPR e ex-preso político
Lídia Maria de Melo
Editora de Local
A família de Celso Lungaretti não era politizada em 1964, quando o golpe militar do dia 31 de março derrubou o governo do então presidente João Goulart. ŒŒOs acontecimentos políticos ainda pareciam distantes da minha realidade‚‚, lembra o jornalista, escritor e ex-preso político que tinha 13 anos na época.Três anos depois, seguindo ŒŒo sentimento difuso de contestação da autoridade‚‚ que havia na juventude brasileira e de outros países, Lungaretti ingressou no movimento estudantil. ŒŒO rito de passagem passou a ser a luta política‚‚.Estava com 18 anos, quando o marechal Arthur da Costa e Silva assinou o Ato Institucional (AI) nº 5, em 13 de dezembro de 1968, e o País perdeu suas garantias constitucionais. O Congresso foi fechado e direitos civis e políticos ficaram suspensos.O jovem Lungaretti, então, assumiu o codinome de Júlio e tornou-se o mais novo entre os dirigentes de uma organização de esquerda que defendia o combate à ditadura pela luta armada, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).
Ao lado de Carlos Lamarca, atuou em um campo de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira em 1970. Ex-capitão do Exército e exímio atirador, Lamarca havia desertado do 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna (SP), e se tornara um dos maiores inimigos do regime. Logo depois, Lungaretti foi preso. Permaneceu incomunicável e sob sessões constantes de torturas. Em consequência, teve um tímpano perfurado e abalo mental. Acabou revelando a localização da área de treinamento desativada no Vale do Ribeira. O Exército, no entanto, descobriu o campo ativo e cercou Lamarca, que conseguiu escapar ileso. A partir daí, Lungaretti foi classificado como delator pela VPR.Soube disso porque seu nome não foi incluído na lista de presos políticos que deveriam ser libertados em troca do cônsul da Alemanha, Ludwig Von Holleben, sequestrado pela organização. No limite de suas forças, Lungaretti cedeu à pressão e renunciou a seus ideais. Uma carta e sua foto foram publicadas em jornais. Diante de câmeras de TV, foi forçado a se arrepender. Por 34 anos, se viu estigmatizado. Só em 2004, suas versões dos fatos foram aceitas pela Comissão Nacional de Anistia. No ano seguinte, publicou o livro Náufrago da Utopia ˜ Vencer ou Morrer na Guerrilha. Aos 18 anos, pela Geração Editorial.Em entrevista a A Tribuna, Celso Lungaretti, hoje com 57 anos, fala sobre sua experiência na VPR, sobre tortura e as consequências da ditadura para o País. Também critica a posição do jornalista Elio Gaspari sobre o episódio da explosão de uma bomba no consulado dos Estados Unidos, em São Paulo, na noite de 20 de março de 1968.
O que o levou, aos 18 anos, a aderir à luta armada para combater a ditadura?
Comecei a fazer movimento estudantil em 1967. Em seu processo de afirmação, os jovens já não se chocavam mais com os pais repressores, e sim com o ŒŒsistema‚‚. Em 1968, tornei-me dirigente do movimento secundarista em toda a Zona Leste de São Paulo. Quando o acirramento da repressão tornou praticamente suicida o trabalho de massas, só os oito líderes estávamos dispostos a seguir em frente, correndo todos os riscos em nome dos ideais de liberdade e justiça social.
Nem todas as organizações de esquerda pegaram em armas. Como avalia essa opção?
Havia uma ditadura feroz, que respondeu à resistência desarmada com torturas e assassinatos, além de deixar os paramilitares de direita agirem à vontade. Depois da assinatura do AI-5, mergulhando o Brasil num terrorismo de estado que chegava a lembrar o nazi-fascismo, as opções passaram a ser: 1) não atuar politicamente, à espera de dias melhores; 2) atuar de forma anódina, sem incomodar realmente a ditadura; 3) atuar de forma consistente no seio das massas e ser logo preso e barbarizado; e 4) atuar na clandestinidade, pela via armada, o que permitia, pelo menos, permanecer algum tempo na luta e devolver golpes do inimigo, causando-lhe problemas. Então, a minha avaliação é de que agimos como verdadeiros cidadãos e pagamos um preço terrível por isso.
Seu livro aborda o treino de guerrilha junto com Lamarca no Vale do Ribeira. Por que o sr. foi acusado de delação?
Fiz parte da equipe precursora que foi implantar uma escola de guerrilha na região de Registro. O sítio que adquirimos tinha muitos inconvenientes. Passados dois meses, resolvemos abandonar essa área. Fui preso depois de quatro meses e, após ser torturado um dia inteiro, revelei a localização daquela área de treinamento abandonada, por saber que de nada serviria para a repressão. Realmente, os militares mandaram duas equipes para investigar e elas voltaram de mãos abanando. Aí houve novas prisões no Rio de Janeiro e a área ativa foi descoberta. Lamarca liderou a fuga de um pequeno grupo de guerrilheiros, que logrou escapar de militares treinados e melhor equipados. Logo em seguida, houve o sequestro do embaixador alemão e eu deixei de ser incluído na chamada lista de troca. Pelos critérios da organização, eu tinha direito de ser libertado. Adivinhei que estavam me atribuindo erroneamente a responsabilidade pela queda da área de treinamento. Demorei 34 anos para conseguir provar, a partir de relatórios secretos militares, que a delação da área ativa partiu de outra pessoa, cujo nome, por questão de princípio, prefiro omitir. Quando o historiador Jacob Gorender avalizou minha versão, admitindo em seu próprio livro Combate nas Trevas que estava errado a meu respeito, começou o processo da minha reabilitação.
O sr. foi obrigado a renunciar a seus ideais. Qual foi o teor da declaração?
Foram mais de dois meses de incomunicabilidade, embora mesmo as leis de exceção daquele tempo só permitissem um mês. Cheguei no limite das minhas forças. Depois de ter o tímpano do ouvido direito estourado e sob ameaça de morte, acabei participando de uma farsa de arrependimento, gravada no estúdio da TV Globo no Jardim Botânico (RJ) em plena madrugada e levada ao ar em cadeia nacional. O objetivo do Serviço de Inteligência do Exército foi reforçar o impacto obtido com a rendição do jovem Massafumi Yoshinaga, que renegou os ideais revolucionários (e depois se suicidou). Quanto às declarações que eu dei, só uma vinha do fundo da minha alma: o conselho a outros jovens para que não entrassem na luta naquele momento, pois já estava perdida e eles se sacrificariam à toa.
Seu livro é uma forma de esclarecer esses episódios históricos?
Quando escrevi, eles já estavam esclarecidos. O Gorender me inocentara no episódio de Registro e o relator do meu processo na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça (Márcio Gontijo, ex-presidente da Seção Brasileira da Anistia Internacional) me qualificara de um dos pleiteantes mais atingidos em seus direitos pelo arbítrio ditatorial. Então, pude fazer o livro com um foco mais nobre: mostrar os riscos a que estão sujeitos os jovens quando participam de uma guerra de adultos. Quis fazer justiça ao sacrifício dos companheiros e amigos que entraram comigo na guerrilha.
Que erros a esquerda cometeu no combate à ditadura?
Independentemente de erros, o desfecho acabou sendo o mesmo nos vários países latino-americanos em que se implantaram ditaduras militares durante as décadas de 1960 e 1970. Então, eu diria que eram lutas impossíveis de serem vencidas ˜ e, ainda assim, teria sido indigno nem sequer havê-las travado. No caso específico do Brasil, os grupos guerrilheiros superestimaram a insatisfação popular perceptível em 1968 e 1969. Sendo o Brasil um país pobre, bastou os Estados Unidos aumentarem substancialmente seus investimentos para a economia decolar e o regime passar a ser apoiado, principalmente pela classe média.
Hoje, a população está ciente do que ocorreu no País de 1964 a 1985?
Não. Boa parte dos jovens não quer nem saber do passado, como se o mundo só tivesse começado a existir no dia em que eles nasceram. Há também aqueles cidadãos idosos para quem a ditadura está associada às lembranças de dias melhores. Como naquele tempo a imprensa era rigidamente censurada, têm a falsa impressão de que havia menos corrupção e criminalidade. Então, ajudam a espalhar uma visão deturpada dos anos de chumbo, que vem ao encontro da propaganda atordoante de uma extrema-direita golpista que, encastelada em sites neo-integralistas, sonha com um novo 1964.
No caso do atentado ao consulado dos Estados Unidos em 1968, no qual o santista Orlando Lovecchio perdeu parte de uma perna, que erros estão sendo divulgados atualmente?
Este é um ótimo exemplo da demagogia inspirada pela direita. A Comissão de Anistia recomendou o pagamento de uma pensão a Diógenes de Carvalho, por ter sido preso e torturado pela ditadura. Cabe ao ministro da Justiça decidir se aceita ou não tal recomendação. Aí o jornalista Elio Gaspari colocou em sua coluna dominical, publicada em vários jornais, que Diógenes receberia duas vezes mais do que a vítima de um atentado por ele cometido, Orlando Lovecchio. Gaspari omitiu: que a pensão de Lovecchio foi concedida pelo Congresso Nacional, cujos procedimentos são diferentes dos do Ministério da Justiça, daí a impropriedade de quaisquer comparações; e que não havia evidências para acusar-se Diógenes de ser autor do atentado, além dos inquéritos policiais-militares da ditadura, contaminados pela prática generalizada da tortura e que, juridicamente, não valem absolutamente nada hoje em dia. Daí minha indignação contra Gaspari, que abusou de seu espaço na mídia para condenar Diógenes e aplicar-lhe a pena de execração pública, fazendo as vezes de juiz e carrasco.
Quem realmente participou?
Gaspari disse que a ação foi da VPR e acusou Diógenes, Dulce Maia, Sérgio Ferro, Rodrigo Lefèvre ŒŒe uma pessoa que não foi identificada‚‚. Logo depois, a Folha (de S. Paulo) e o próprio Gaspari admitiram que Dulce Maia era inocente dessa acusação e lhe pediram desculpas públicas. Aí veio o Sérgio Ferro e esclareceu que o atentado havia sido cometido por outra organização (a ALN), tendo como autores ele próprio, Lefèvre e um tal de Marquinhos, que logo foi morto pela repressão e cujo nome ele não ficou sabendo. Ou seja, Gaspari deu cinco chutes e errou três, por confiar no entulho autoritário. Como a participação do Diógenes não foi provada, sua matéria inteira desabou.
Em um artigo, o sr. escreveu que o arquiteto Sérgio Ferro foi processado por Lovecchio, mas ganhou a ação, porque laudos médicos atestavam que o ferimento da perna dele se complicou por culpa dos agentes do Deops. Como se deu isso?
Lovecchio só perdeu a perna porque seu atendimento médico foi interrompido para que o Deops o interrogasse, provavelmente supondo tratar-se de um participante do atentado atingido pela própria bomba, o que acabou causando a gangrena. Então, o laudo inicial dá conta de que ele poderia restabelecer-se bem do atentado. Já o outro relatório atesta que, no tempo em que ele ficou sendo interrogado pelo Deops, sua perna gangrenou e não podia mais ser salva.
Se fosse possível escolher, o sr. se engajaria novamente na luta contra uma ditadura? Ou mudaria métodos de ação?
Pegar em armas deve ser sempre a última opção. Mas, numa situação como a que existia no Brasil em abril de 1969, quatro meses depois da assinatura do famigerado AI-5, eu pegaria em armas de novo, sim. Pois aquela passou a ser a única forma de resistência possível. E eu continuo fiel aos valores da minha geração, como o de que, diante das injustiças extremas, ser omisso é ser cúmplice.
Jornalista, escritor, ex-militante da VPR e ex-preso político
Lídia Maria de Melo
Editora de Local
A família de Celso Lungaretti não era politizada em 1964, quando o golpe militar do dia 31 de março derrubou o governo do então presidente João Goulart. ŒŒOs acontecimentos políticos ainda pareciam distantes da minha realidade‚‚, lembra o jornalista, escritor e ex-preso político que tinha 13 anos na época.Três anos depois, seguindo ŒŒo sentimento difuso de contestação da autoridade‚‚ que havia na juventude brasileira e de outros países, Lungaretti ingressou no movimento estudantil. ŒŒO rito de passagem passou a ser a luta política‚‚.Estava com 18 anos, quando o marechal Arthur da Costa e Silva assinou o Ato Institucional (AI) nº 5, em 13 de dezembro de 1968, e o País perdeu suas garantias constitucionais. O Congresso foi fechado e direitos civis e políticos ficaram suspensos.O jovem Lungaretti, então, assumiu o codinome de Júlio e tornou-se o mais novo entre os dirigentes de uma organização de esquerda que defendia o combate à ditadura pela luta armada, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR).
Ao lado de Carlos Lamarca, atuou em um campo de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira em 1970. Ex-capitão do Exército e exímio atirador, Lamarca havia desertado do 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna (SP), e se tornara um dos maiores inimigos do regime. Logo depois, Lungaretti foi preso. Permaneceu incomunicável e sob sessões constantes de torturas. Em consequência, teve um tímpano perfurado e abalo mental. Acabou revelando a localização da área de treinamento desativada no Vale do Ribeira. O Exército, no entanto, descobriu o campo ativo e cercou Lamarca, que conseguiu escapar ileso. A partir daí, Lungaretti foi classificado como delator pela VPR.Soube disso porque seu nome não foi incluído na lista de presos políticos que deveriam ser libertados em troca do cônsul da Alemanha, Ludwig Von Holleben, sequestrado pela organização. No limite de suas forças, Lungaretti cedeu à pressão e renunciou a seus ideais. Uma carta e sua foto foram publicadas em jornais. Diante de câmeras de TV, foi forçado a se arrepender. Por 34 anos, se viu estigmatizado. Só em 2004, suas versões dos fatos foram aceitas pela Comissão Nacional de Anistia. No ano seguinte, publicou o livro Náufrago da Utopia ˜ Vencer ou Morrer na Guerrilha. Aos 18 anos, pela Geração Editorial.Em entrevista a A Tribuna, Celso Lungaretti, hoje com 57 anos, fala sobre sua experiência na VPR, sobre tortura e as consequências da ditadura para o País. Também critica a posição do jornalista Elio Gaspari sobre o episódio da explosão de uma bomba no consulado dos Estados Unidos, em São Paulo, na noite de 20 de março de 1968.
O que o levou, aos 18 anos, a aderir à luta armada para combater a ditadura?
Comecei a fazer movimento estudantil em 1967. Em seu processo de afirmação, os jovens já não se chocavam mais com os pais repressores, e sim com o ŒŒsistema‚‚. Em 1968, tornei-me dirigente do movimento secundarista em toda a Zona Leste de São Paulo. Quando o acirramento da repressão tornou praticamente suicida o trabalho de massas, só os oito líderes estávamos dispostos a seguir em frente, correndo todos os riscos em nome dos ideais de liberdade e justiça social.
Nem todas as organizações de esquerda pegaram em armas. Como avalia essa opção?
Havia uma ditadura feroz, que respondeu à resistência desarmada com torturas e assassinatos, além de deixar os paramilitares de direita agirem à vontade. Depois da assinatura do AI-5, mergulhando o Brasil num terrorismo de estado que chegava a lembrar o nazi-fascismo, as opções passaram a ser: 1) não atuar politicamente, à espera de dias melhores; 2) atuar de forma anódina, sem incomodar realmente a ditadura; 3) atuar de forma consistente no seio das massas e ser logo preso e barbarizado; e 4) atuar na clandestinidade, pela via armada, o que permitia, pelo menos, permanecer algum tempo na luta e devolver golpes do inimigo, causando-lhe problemas. Então, a minha avaliação é de que agimos como verdadeiros cidadãos e pagamos um preço terrível por isso.
Seu livro aborda o treino de guerrilha junto com Lamarca no Vale do Ribeira. Por que o sr. foi acusado de delação?
Fiz parte da equipe precursora que foi implantar uma escola de guerrilha na região de Registro. O sítio que adquirimos tinha muitos inconvenientes. Passados dois meses, resolvemos abandonar essa área. Fui preso depois de quatro meses e, após ser torturado um dia inteiro, revelei a localização daquela área de treinamento abandonada, por saber que de nada serviria para a repressão. Realmente, os militares mandaram duas equipes para investigar e elas voltaram de mãos abanando. Aí houve novas prisões no Rio de Janeiro e a área ativa foi descoberta. Lamarca liderou a fuga de um pequeno grupo de guerrilheiros, que logrou escapar de militares treinados e melhor equipados. Logo em seguida, houve o sequestro do embaixador alemão e eu deixei de ser incluído na chamada lista de troca. Pelos critérios da organização, eu tinha direito de ser libertado. Adivinhei que estavam me atribuindo erroneamente a responsabilidade pela queda da área de treinamento. Demorei 34 anos para conseguir provar, a partir de relatórios secretos militares, que a delação da área ativa partiu de outra pessoa, cujo nome, por questão de princípio, prefiro omitir. Quando o historiador Jacob Gorender avalizou minha versão, admitindo em seu próprio livro Combate nas Trevas que estava errado a meu respeito, começou o processo da minha reabilitação.
O sr. foi obrigado a renunciar a seus ideais. Qual foi o teor da declaração?
Foram mais de dois meses de incomunicabilidade, embora mesmo as leis de exceção daquele tempo só permitissem um mês. Cheguei no limite das minhas forças. Depois de ter o tímpano do ouvido direito estourado e sob ameaça de morte, acabei participando de uma farsa de arrependimento, gravada no estúdio da TV Globo no Jardim Botânico (RJ) em plena madrugada e levada ao ar em cadeia nacional. O objetivo do Serviço de Inteligência do Exército foi reforçar o impacto obtido com a rendição do jovem Massafumi Yoshinaga, que renegou os ideais revolucionários (e depois se suicidou). Quanto às declarações que eu dei, só uma vinha do fundo da minha alma: o conselho a outros jovens para que não entrassem na luta naquele momento, pois já estava perdida e eles se sacrificariam à toa.
Seu livro é uma forma de esclarecer esses episódios históricos?
Quando escrevi, eles já estavam esclarecidos. O Gorender me inocentara no episódio de Registro e o relator do meu processo na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça (Márcio Gontijo, ex-presidente da Seção Brasileira da Anistia Internacional) me qualificara de um dos pleiteantes mais atingidos em seus direitos pelo arbítrio ditatorial. Então, pude fazer o livro com um foco mais nobre: mostrar os riscos a que estão sujeitos os jovens quando participam de uma guerra de adultos. Quis fazer justiça ao sacrifício dos companheiros e amigos que entraram comigo na guerrilha.
Que erros a esquerda cometeu no combate à ditadura?
Independentemente de erros, o desfecho acabou sendo o mesmo nos vários países latino-americanos em que se implantaram ditaduras militares durante as décadas de 1960 e 1970. Então, eu diria que eram lutas impossíveis de serem vencidas ˜ e, ainda assim, teria sido indigno nem sequer havê-las travado. No caso específico do Brasil, os grupos guerrilheiros superestimaram a insatisfação popular perceptível em 1968 e 1969. Sendo o Brasil um país pobre, bastou os Estados Unidos aumentarem substancialmente seus investimentos para a economia decolar e o regime passar a ser apoiado, principalmente pela classe média.
Hoje, a população está ciente do que ocorreu no País de 1964 a 1985?
Não. Boa parte dos jovens não quer nem saber do passado, como se o mundo só tivesse começado a existir no dia em que eles nasceram. Há também aqueles cidadãos idosos para quem a ditadura está associada às lembranças de dias melhores. Como naquele tempo a imprensa era rigidamente censurada, têm a falsa impressão de que havia menos corrupção e criminalidade. Então, ajudam a espalhar uma visão deturpada dos anos de chumbo, que vem ao encontro da propaganda atordoante de uma extrema-direita golpista que, encastelada em sites neo-integralistas, sonha com um novo 1964.
No caso do atentado ao consulado dos Estados Unidos em 1968, no qual o santista Orlando Lovecchio perdeu parte de uma perna, que erros estão sendo divulgados atualmente?
Este é um ótimo exemplo da demagogia inspirada pela direita. A Comissão de Anistia recomendou o pagamento de uma pensão a Diógenes de Carvalho, por ter sido preso e torturado pela ditadura. Cabe ao ministro da Justiça decidir se aceita ou não tal recomendação. Aí o jornalista Elio Gaspari colocou em sua coluna dominical, publicada em vários jornais, que Diógenes receberia duas vezes mais do que a vítima de um atentado por ele cometido, Orlando Lovecchio. Gaspari omitiu: que a pensão de Lovecchio foi concedida pelo Congresso Nacional, cujos procedimentos são diferentes dos do Ministério da Justiça, daí a impropriedade de quaisquer comparações; e que não havia evidências para acusar-se Diógenes de ser autor do atentado, além dos inquéritos policiais-militares da ditadura, contaminados pela prática generalizada da tortura e que, juridicamente, não valem absolutamente nada hoje em dia. Daí minha indignação contra Gaspari, que abusou de seu espaço na mídia para condenar Diógenes e aplicar-lhe a pena de execração pública, fazendo as vezes de juiz e carrasco.
Quem realmente participou?
Gaspari disse que a ação foi da VPR e acusou Diógenes, Dulce Maia, Sérgio Ferro, Rodrigo Lefèvre ŒŒe uma pessoa que não foi identificada‚‚. Logo depois, a Folha (de S. Paulo) e o próprio Gaspari admitiram que Dulce Maia era inocente dessa acusação e lhe pediram desculpas públicas. Aí veio o Sérgio Ferro e esclareceu que o atentado havia sido cometido por outra organização (a ALN), tendo como autores ele próprio, Lefèvre e um tal de Marquinhos, que logo foi morto pela repressão e cujo nome ele não ficou sabendo. Ou seja, Gaspari deu cinco chutes e errou três, por confiar no entulho autoritário. Como a participação do Diógenes não foi provada, sua matéria inteira desabou.
Em um artigo, o sr. escreveu que o arquiteto Sérgio Ferro foi processado por Lovecchio, mas ganhou a ação, porque laudos médicos atestavam que o ferimento da perna dele se complicou por culpa dos agentes do Deops. Como se deu isso?
Lovecchio só perdeu a perna porque seu atendimento médico foi interrompido para que o Deops o interrogasse, provavelmente supondo tratar-se de um participante do atentado atingido pela própria bomba, o que acabou causando a gangrena. Então, o laudo inicial dá conta de que ele poderia restabelecer-se bem do atentado. Já o outro relatório atesta que, no tempo em que ele ficou sendo interrogado pelo Deops, sua perna gangrenou e não podia mais ser salva.
Se fosse possível escolher, o sr. se engajaria novamente na luta contra uma ditadura? Ou mudaria métodos de ação?
Pegar em armas deve ser sempre a última opção. Mas, numa situação como a que existia no Brasil em abril de 1969, quatro meses depois da assinatura do famigerado AI-5, eu pegaria em armas de novo, sim. Pois aquela passou a ser a única forma de resistência possível. E eu continuo fiel aos valores da minha geração, como o de que, diante das injustiças extremas, ser omisso é ser cúmplice.
De um amigo, vem o texto. Vale a pena ler.
Vale a pena ler....Trecho
Work provides more than an income. It is a source of self-worth, pride and sense of purpose. Children learn as much from observation as instruction. The mother or father who has lost hope along with their job can unintentionally impart that hopelessness to their children. A welfare check can't give a parent a sense of purpose. And among the most important things children can inherit from their parents is a sense of purpose, and an aspiration to be part of something bigger than themselves.
McCain's "Service to America" Speech
John McCain
Mississippi State University
Meridian, Mississippi
March 31, 2008
Thank you. It's good to be back in Meridian. As you might know, I was once a flight instructor here at the air field named for my grandfather during my long past and misspent youth. And it's always good to be in Mississippi, which you could call my ancestral home. Generations of McCains were born and raised in Carroll County, on land that had been in our family since 1848. The last McCain to live on the property, which the family called Teoc, was my grandfather's brother, Joe McCain. I spent a couple summers here as a young boy, and enjoyed it immensely. I had never had a permanent address because my father's naval career required us to move frequently. But here, in the care of my very likeable Uncle Joe, I could imagine, with a little envy, what it must have been like for the McCains who came before me to be so connected to one place; to be part of a community and a landscape as well as a family.
By all accounts, the McCains of Carroll County were devoted to one another and their traditions; a lively, proud and happy family on the Mississippi Delta. Yet, many McCains left here as young men to pursue careers in what has long been our family's chosen profession - the United States Armed Forces. My great-grandfather was the sheriff and never left. But his brother, Henry Pinkney McCain, was a major general in the Army, and organized the draft in World War One. Camp McCain in Grenada, Mississippi is named for him. My great uncle, William McCain, was known as "Wild Bill" for his "dynamic" personality - he was reputed to have ridden his horse onto his future father-in-law's porch to ask him for his daughter's hand. He chased Pancho Villa with General Pershing, was an artillery officer in World War One, and retired a Brigadier General. Both men are buried at Arlington National Cemetery, as are my father and grandfather. We trace my family's martial heritage back to the Revolution. A distant ancestor served on General Washington's staff, and it seems my ancestors fought in most wars in our nation's history. All were soldiers - both Henry and Bill McCain were West Pointers - until my grandfather broke family tradition and entered the Naval Academy in 1902. He was succeeded there by my father, then me, and then my son.
As I noted, the naval air field here is named for my grandfather, who had an illustrious career in the Navy, and who remained proud of his Mississippi roots until the end of his life. I have only very early memories of him. I was just nine when he died. But he was an unforgettable man, a lively, colorful, though infrequent, presence in our lives. To spend time in his company was as much fun as a young boy could imagine. He loved his family, and we were spellbound by him. He was a slight man and gaunt, but he filled any room with his deep voice and high spirits. He was devoted to the Navy, but in personal comportment, he was anything but regulation. He was a rumpled, informal man, who wore a crushed cap with the crown removed that the wife of one of his aviators had given him; kept his shoes off when he worked in an office; tobacco leavings were always scattered about him, as he rolled his own with one hand; possessed a mischievous sense of humor, and was unusually close to sailors and junior officers who served under him, and revered him. They called him, "Popeye;" his family called him, "Sid;" and his fellow officers, "Slew," for reasons I never learned
After graduating from the Naval Academy, he sailed around the Philippine Islands on a gunboat captured from the Spanish, the executive officer to the great Chester Nimitz. He returned to the United States on the U.S.S. Connecticut, the flagship of Teddy Roosevelt's Great White Fleet. He served on an armored cruiser in the First World War, escorting wartime convoys across the U-boat infested Atlantic. In 1935, after the Navy ordered that all aircraft carrier skippers must themselves have earned their wings, he trained as a pilot. He was 52 years old at the time, and a Navy Captain. By his own admission, he never learned to fly well. A subordinate recalled later, "the base prayed for his safe return each time he flew." But he managed to earn his wings, and left Pensacola to command the naval air station in the Panama Canal Zone, where I was born.
My father, Jack McCain, was an officer at a submarine base there, one of the few occasions in his adult life when he lived in close proximity to the man he admired above all others. Though they lived far apart for decades, no father and son could have been closer. My father described his father as "a very great leader and people loved him. . . the blood of life flowed through his veins . . . a man of great moral and physical courage." He had learned everything about leadership from his father, he said. Both were highly individualistic men with outsize personalities, but were completely dedicated to the United States Navy. Neither ever wanted any other life, and while both were guilty of more than a few regulation infractions, and shared a few vices, they adhered strictly to the code father had taught son: never lie, steal or cheat. Both took a great interest in the views and well-being of the men who served under them. They believed military leaders learned as much from the people they commanded as they taught them. They were demanding, but fair and compassionate commanders. "We are responsible for our men," my father once said, "not the other way around. That's what forges trust and loyalty." They shirked no duty, braved extraordinary dangers, and were exceptional leaders. They were the first father and son to become four star admirals.
My grandfather commanded the fast carrier task force in the Pacific under Admiral Halsey, and devised many of the tactics that were employed by carriers for many years after. He was instrumental in Japan's defeat, and was given a privileged place on the deck of the U.S.S. Missouri to witness the signing of the unconditional surrender that ended the war. My father commanded a submarine in the Pacific during the war, survived several harrowing experiences, and had brought a Japanese submarine into Tokyo Harbor at the time of the surrender ceremony. Both were exhausted at war's end, but happy to have the opportunity for a brief reunion. They met onboard a submarine tender, and spent a couple of hours together. My grandfather was worn out and obviously ill. Years later, my father recalled the last words my grandfather had ever spoken to him. "Son, there is no greater thing than to die . . . for the country and principles that you believe in." After father and son parted that afternoon, my grandfather began the long trip home to Coronado. Not long after he arrived, at a homecoming party, he turned to my grandmother, and announced he did not feel well. He died a moment later of a heart attack. He had fought his war and died in service to the country he believed in.
My father could not return to the States in time for the funeral. My mother found him waiting for her to return to California from the funeral in Washington, weeping on the airport tarmac. In time, my father, the son of a legendary naval leader, would rise to an even greater command than his father had. During the Vietnam War, he commanded all U.S. forces in the Pacific, at the top of a chain of command that included, near the bottom, his son, a naval aviator on Yankee Station in the Tonkin Gulf, and later a prisoner of war in Hanoi. My father seldom spoke of my captivity to anyone outside the family, and never in public. He prayed on his knees every night for my safe return. He would spend holidays with the troops in Vietnam, near the DMZ. At the end of his visit, he would walk alone to the base perimeter, and look north toward the city where I was held. Yet, when duty required it, he gave the order for B-52s to bomb Hanoi, in close proximity to my prison.
I have lived a blessed life, and the first of my blessings was the family I was born into. I had not only the example of my distinguished male relations, and their long tradition of military service. I was fortunate to grow up under the influence of strong, capable, accomplished women; first among them, my mother, the formidable Roberta McCain; her identical twin, Rowena; my strict and imposing paternal grandmother, Catherine; and equally impressive maternal grandmother, Myrtle. For much of my childhood, my mother was the parent who raised me, my sister and brother. My father was often at sea, and she bore all the responsibilities of both parents. She moved us from base to base, often driving us across country on her own; managed our household; paid the bills; saw to our education and religious upbringing; and made of our itinerant childhood, an interesting, exciting time, rich with fascinating experiences. She was and is a resilient woman, extroverted, uncomplaining, forthright and determined, who greets every challenge as an opportunity to measure one's strength of character and learn about the wider world beyond our immediate environment.
The family I was born to, and the family I am blessed with now, made me the man I am, and instilled in me a deep and abiding respect for the social institution that wields the greatest influence in the formation of our individual character and the character of our society. I may have been raised in a time when government did not dare to assume the responsibilities of parents. But I am a father in a time when parents worry that threats to their children's well-being are proliferating and undermining the values they have worked to impart to them. That is not to say that government should dictate to parents how to raise their children or assume from parents any part of that most personal and important responsibility. No government is capable of caring for children as attentively and wisely as the mother and father who love them. But government must be attentive to the impact of its policies on families so that it does not through inattention or arrogance make it harder for parents to have the resources to succeed in the greatest work of their lives - raising their children. And where government has a role to play, in education, in combating the threats to the security and happiness of children from online predators, in helping to make health care affordable and accessible to the least fortunate among us, it must do so urgently, effectively and wisely.
Tax policy must not rob parents of the means to care for their children and provide them the opportunities their parents provided them. Government spending must not be squandered on things we do not need and can't afford, and which don't address a single American's concern for their family's security. Government can't just throw money at public education while reinforcing the failures of many of our schools, but should, through choice and competition, by rewarding good teachers and holding bad teachers accountable, help parents prepare their children for the challenges and opportunities of the global economy. Government must be attentive to the impact on families of parents who have lost jobs in our changing economy that won't come back. Our programs for displaced workers are antiquated, repetitive and ineffective. Many were designed for a time when unemployment was seasonal or a temporary consequence of an economic downturn, not for a time when systemic changes wrought by the growing global economy have, while promising undreamt of opportunities for ourselves and many historically poor societies, have cost too many parents the jobs they had assumed would be theirs for life.
With the loss of work and the resources it provides families, come just as injurious losses to the emotional health of families. Work provides more than an income. It is a source of self-worth, pride and sense of purpose. Children learn as much from observation as instruction. The mother or father who has lost hope along with their job can unintentionally impart that hopelessness to their children. A welfare check can't give a parent a sense of purpose. And among the most important things children can inherit from their parents is a sense of purpose, and an aspiration to be part of something bigger than themselves.
My parents taught me that, and I will always be indebted to them. But like many young people, I didn't understand the lesson very well until later in life when I needed it most. As a boy, my family legacy, as fascinating as it was to me, often felt like an imposition. I knew from a very early age that I was destined for Annapolis and a career in the Navy. In reaction, I often rebelled in small and petty ways to what I perceived as an encroachment on my free will.
I concede that I remember with affection the unruly passions of youth, and how they governed my immature sense of honor and self-respect. As I grew older, and the challenges to my self-respect grew more varied and serious, I was surprised to discover that while my sense of honor had matured, its defense mattered even more to me than it did when it was such a vulnerable thing that any empty challenge threatened it.
Like most people, when I reflect on the adventures and joys of youth, I feel a longing for what is lost and cannot be restored. But though the happy pursuits of the young prove ephemeral, something better can endure, and endure until our last moment of life. And that is the honor we earn and the love we give when we work and sacrifice with others for a cause greater than our self-interest. For me that cause has long been our country. I am a lucky, lucky man to have found it, and am forever grateful to those who showed me the way. What they gave me was much more valuable and lasting than the tribute I once paid to vanity.
I am the son and grandson of admirals. My grandfather was an aviator; my father a submariner. They were my first heroes, and their respect for me has been one of the most lasting ambitions of my life. They gave their lives to their country, and taught me lessons about honor, courage, duty, perseverance and leadership that I didn't fully grasp until later in life, but remembered when I needed them most. I have been an imperfect servant of my country for many years. But I am their son, and they showed me how to love my country, and that has made all the difference for me, my friends, all the difference in the world.
John McCain, a U.S. Senator from Arizona, is a candidate for the Republican presidential nomination
Work provides more than an income. It is a source of self-worth, pride and sense of purpose. Children learn as much from observation as instruction. The mother or father who has lost hope along with their job can unintentionally impart that hopelessness to their children. A welfare check can't give a parent a sense of purpose. And among the most important things children can inherit from their parents is a sense of purpose, and an aspiration to be part of something bigger than themselves.
McCain's "Service to America" Speech
John McCain
Mississippi State University
Meridian, Mississippi
March 31, 2008
Thank you. It's good to be back in Meridian. As you might know, I was once a flight instructor here at the air field named for my grandfather during my long past and misspent youth. And it's always good to be in Mississippi, which you could call my ancestral home. Generations of McCains were born and raised in Carroll County, on land that had been in our family since 1848. The last McCain to live on the property, which the family called Teoc, was my grandfather's brother, Joe McCain. I spent a couple summers here as a young boy, and enjoyed it immensely. I had never had a permanent address because my father's naval career required us to move frequently. But here, in the care of my very likeable Uncle Joe, I could imagine, with a little envy, what it must have been like for the McCains who came before me to be so connected to one place; to be part of a community and a landscape as well as a family.
By all accounts, the McCains of Carroll County were devoted to one another and their traditions; a lively, proud and happy family on the Mississippi Delta. Yet, many McCains left here as young men to pursue careers in what has long been our family's chosen profession - the United States Armed Forces. My great-grandfather was the sheriff and never left. But his brother, Henry Pinkney McCain, was a major general in the Army, and organized the draft in World War One. Camp McCain in Grenada, Mississippi is named for him. My great uncle, William McCain, was known as "Wild Bill" for his "dynamic" personality - he was reputed to have ridden his horse onto his future father-in-law's porch to ask him for his daughter's hand. He chased Pancho Villa with General Pershing, was an artillery officer in World War One, and retired a Brigadier General. Both men are buried at Arlington National Cemetery, as are my father and grandfather. We trace my family's martial heritage back to the Revolution. A distant ancestor served on General Washington's staff, and it seems my ancestors fought in most wars in our nation's history. All were soldiers - both Henry and Bill McCain were West Pointers - until my grandfather broke family tradition and entered the Naval Academy in 1902. He was succeeded there by my father, then me, and then my son.
As I noted, the naval air field here is named for my grandfather, who had an illustrious career in the Navy, and who remained proud of his Mississippi roots until the end of his life. I have only very early memories of him. I was just nine when he died. But he was an unforgettable man, a lively, colorful, though infrequent, presence in our lives. To spend time in his company was as much fun as a young boy could imagine. He loved his family, and we were spellbound by him. He was a slight man and gaunt, but he filled any room with his deep voice and high spirits. He was devoted to the Navy, but in personal comportment, he was anything but regulation. He was a rumpled, informal man, who wore a crushed cap with the crown removed that the wife of one of his aviators had given him; kept his shoes off when he worked in an office; tobacco leavings were always scattered about him, as he rolled his own with one hand; possessed a mischievous sense of humor, and was unusually close to sailors and junior officers who served under him, and revered him. They called him, "Popeye;" his family called him, "Sid;" and his fellow officers, "Slew," for reasons I never learned
After graduating from the Naval Academy, he sailed around the Philippine Islands on a gunboat captured from the Spanish, the executive officer to the great Chester Nimitz. He returned to the United States on the U.S.S. Connecticut, the flagship of Teddy Roosevelt's Great White Fleet. He served on an armored cruiser in the First World War, escorting wartime convoys across the U-boat infested Atlantic. In 1935, after the Navy ordered that all aircraft carrier skippers must themselves have earned their wings, he trained as a pilot. He was 52 years old at the time, and a Navy Captain. By his own admission, he never learned to fly well. A subordinate recalled later, "the base prayed for his safe return each time he flew." But he managed to earn his wings, and left Pensacola to command the naval air station in the Panama Canal Zone, where I was born.
My father, Jack McCain, was an officer at a submarine base there, one of the few occasions in his adult life when he lived in close proximity to the man he admired above all others. Though they lived far apart for decades, no father and son could have been closer. My father described his father as "a very great leader and people loved him. . . the blood of life flowed through his veins . . . a man of great moral and physical courage." He had learned everything about leadership from his father, he said. Both were highly individualistic men with outsize personalities, but were completely dedicated to the United States Navy. Neither ever wanted any other life, and while both were guilty of more than a few regulation infractions, and shared a few vices, they adhered strictly to the code father had taught son: never lie, steal or cheat. Both took a great interest in the views and well-being of the men who served under them. They believed military leaders learned as much from the people they commanded as they taught them. They were demanding, but fair and compassionate commanders. "We are responsible for our men," my father once said, "not the other way around. That's what forges trust and loyalty." They shirked no duty, braved extraordinary dangers, and were exceptional leaders. They were the first father and son to become four star admirals.
My grandfather commanded the fast carrier task force in the Pacific under Admiral Halsey, and devised many of the tactics that were employed by carriers for many years after. He was instrumental in Japan's defeat, and was given a privileged place on the deck of the U.S.S. Missouri to witness the signing of the unconditional surrender that ended the war. My father commanded a submarine in the Pacific during the war, survived several harrowing experiences, and had brought a Japanese submarine into Tokyo Harbor at the time of the surrender ceremony. Both were exhausted at war's end, but happy to have the opportunity for a brief reunion. They met onboard a submarine tender, and spent a couple of hours together. My grandfather was worn out and obviously ill. Years later, my father recalled the last words my grandfather had ever spoken to him. "Son, there is no greater thing than to die . . . for the country and principles that you believe in." After father and son parted that afternoon, my grandfather began the long trip home to Coronado. Not long after he arrived, at a homecoming party, he turned to my grandmother, and announced he did not feel well. He died a moment later of a heart attack. He had fought his war and died in service to the country he believed in.
My father could not return to the States in time for the funeral. My mother found him waiting for her to return to California from the funeral in Washington, weeping on the airport tarmac. In time, my father, the son of a legendary naval leader, would rise to an even greater command than his father had. During the Vietnam War, he commanded all U.S. forces in the Pacific, at the top of a chain of command that included, near the bottom, his son, a naval aviator on Yankee Station in the Tonkin Gulf, and later a prisoner of war in Hanoi. My father seldom spoke of my captivity to anyone outside the family, and never in public. He prayed on his knees every night for my safe return. He would spend holidays with the troops in Vietnam, near the DMZ. At the end of his visit, he would walk alone to the base perimeter, and look north toward the city where I was held. Yet, when duty required it, he gave the order for B-52s to bomb Hanoi, in close proximity to my prison.
I have lived a blessed life, and the first of my blessings was the family I was born into. I had not only the example of my distinguished male relations, and their long tradition of military service. I was fortunate to grow up under the influence of strong, capable, accomplished women; first among them, my mother, the formidable Roberta McCain; her identical twin, Rowena; my strict and imposing paternal grandmother, Catherine; and equally impressive maternal grandmother, Myrtle. For much of my childhood, my mother was the parent who raised me, my sister and brother. My father was often at sea, and she bore all the responsibilities of both parents. She moved us from base to base, often driving us across country on her own; managed our household; paid the bills; saw to our education and religious upbringing; and made of our itinerant childhood, an interesting, exciting time, rich with fascinating experiences. She was and is a resilient woman, extroverted, uncomplaining, forthright and determined, who greets every challenge as an opportunity to measure one's strength of character and learn about the wider world beyond our immediate environment.
The family I was born to, and the family I am blessed with now, made me the man I am, and instilled in me a deep and abiding respect for the social institution that wields the greatest influence in the formation of our individual character and the character of our society. I may have been raised in a time when government did not dare to assume the responsibilities of parents. But I am a father in a time when parents worry that threats to their children's well-being are proliferating and undermining the values they have worked to impart to them. That is not to say that government should dictate to parents how to raise their children or assume from parents any part of that most personal and important responsibility. No government is capable of caring for children as attentively and wisely as the mother and father who love them. But government must be attentive to the impact of its policies on families so that it does not through inattention or arrogance make it harder for parents to have the resources to succeed in the greatest work of their lives - raising their children. And where government has a role to play, in education, in combating the threats to the security and happiness of children from online predators, in helping to make health care affordable and accessible to the least fortunate among us, it must do so urgently, effectively and wisely.
Tax policy must not rob parents of the means to care for their children and provide them the opportunities their parents provided them. Government spending must not be squandered on things we do not need and can't afford, and which don't address a single American's concern for their family's security. Government can't just throw money at public education while reinforcing the failures of many of our schools, but should, through choice and competition, by rewarding good teachers and holding bad teachers accountable, help parents prepare their children for the challenges and opportunities of the global economy. Government must be attentive to the impact on families of parents who have lost jobs in our changing economy that won't come back. Our programs for displaced workers are antiquated, repetitive and ineffective. Many were designed for a time when unemployment was seasonal or a temporary consequence of an economic downturn, not for a time when systemic changes wrought by the growing global economy have, while promising undreamt of opportunities for ourselves and many historically poor societies, have cost too many parents the jobs they had assumed would be theirs for life.
With the loss of work and the resources it provides families, come just as injurious losses to the emotional health of families. Work provides more than an income. It is a source of self-worth, pride and sense of purpose. Children learn as much from observation as instruction. The mother or father who has lost hope along with their job can unintentionally impart that hopelessness to their children. A welfare check can't give a parent a sense of purpose. And among the most important things children can inherit from their parents is a sense of purpose, and an aspiration to be part of something bigger than themselves.
My parents taught me that, and I will always be indebted to them. But like many young people, I didn't understand the lesson very well until later in life when I needed it most. As a boy, my family legacy, as fascinating as it was to me, often felt like an imposition. I knew from a very early age that I was destined for Annapolis and a career in the Navy. In reaction, I often rebelled in small and petty ways to what I perceived as an encroachment on my free will.
I concede that I remember with affection the unruly passions of youth, and how they governed my immature sense of honor and self-respect. As I grew older, and the challenges to my self-respect grew more varied and serious, I was surprised to discover that while my sense of honor had matured, its defense mattered even more to me than it did when it was such a vulnerable thing that any empty challenge threatened it.
Like most people, when I reflect on the adventures and joys of youth, I feel a longing for what is lost and cannot be restored. But though the happy pursuits of the young prove ephemeral, something better can endure, and endure until our last moment of life. And that is the honor we earn and the love we give when we work and sacrifice with others for a cause greater than our self-interest. For me that cause has long been our country. I am a lucky, lucky man to have found it, and am forever grateful to those who showed me the way. What they gave me was much more valuable and lasting than the tribute I once paid to vanity.
I am the son and grandson of admirals. My grandfather was an aviator; my father a submariner. They were my first heroes, and their respect for me has been one of the most lasting ambitions of my life. They gave their lives to their country, and taught me lessons about honor, courage, duty, perseverance and leadership that I didn't fully grasp until later in life, but remembered when I needed them most. I have been an imperfect servant of my country for many years. But I am their son, and they showed me how to love my country, and that has made all the difference for me, my friends, all the difference in the world.
John McCain, a U.S. Senator from Arizona, is a candidate for the Republican presidential nomination
Sequencia do artigo sobre o Tibete, no blogo de Orlando Tambosi
O Tibete é estratégico para a China
Complementando o artigo de Antonio S. Baptista (O mito do Dalai Lama, abaixo), cito matéria do Estadão de hoje:
O forte crescimento econômico do Tibete na última década - média de 12% ao ano - beneficiou principalmente os chineses da etnia han e marginalizou os tibetanos. Isso, aliado à forte repressão política, foi a origem dos protestos dos dias 14 e 15 de março em Lhasa, na opinião de Andrew Martin Fischer, da London School of Economics. Segundo ele, a estratégia de Pequim para a região é de assimilação - os tibetanos são forçados a se “achinesar” se quiserem se integrar ao sistema econômico. O Tibete é estratégico para Pequim por abrigar o platô Qinghai-Tibete, uma fonte crucial de abastecimento para o país - cujas outras reservas são escassas e mal distribuídas. Além disso, o território abriga o maior depósito de cobre da China e também é rico em minas de ferro, chumbo, zinco e cádmio - necessários para alimentar o voraz crescimento econômico da indústria chinesa.
Complementando o artigo de Antonio S. Baptista (O mito do Dalai Lama, abaixo), cito matéria do Estadão de hoje:
O forte crescimento econômico do Tibete na última década - média de 12% ao ano - beneficiou principalmente os chineses da etnia han e marginalizou os tibetanos. Isso, aliado à forte repressão política, foi a origem dos protestos dos dias 14 e 15 de março em Lhasa, na opinião de Andrew Martin Fischer, da London School of Economics. Segundo ele, a estratégia de Pequim para a região é de assimilação - os tibetanos são forçados a se “achinesar” se quiserem se integrar ao sistema econômico. O Tibete é estratégico para Pequim por abrigar o platô Qinghai-Tibete, uma fonte crucial de abastecimento para o país - cujas outras reservas são escassas e mal distribuídas. Além disso, o território abriga o maior depósito de cobre da China e também é rico em minas de ferro, chumbo, zinco e cádmio - necessários para alimentar o voraz crescimento econômico da indústria chinesa.
domingo, março 30, 2008
No Blog de Olrando Tambosi, um artigo que ajuda a pensar.
Sábado, 29 de Março de 2008
O mito do Dalai Lama
O texto a seguir é uma colaboração de Antonio Sergio Ferreira Baptista, médico em Joinville (SC).
Com o conflito nas ruas de Lhasa, o Tibete voltou a ser o centro das atenções recentemente. Clamores pela libertação do país, idealizado como um Shangri-la, invadiram a mídia, mas este Tibete ilusório tem pouco a ver com a realidade histórica.
O povo tibetano é apenas uma das 56 minorias existentes na China, onde a maior parte da população é Han. Dentro do Tibete, além dos tibetanos, há outras nacionalidades, como os Moinbas, Lopas, Naxis, Huis, Dengs e Xiaerbas. Claro que só os tibetanos são estrelas em Hollywood, ou melhor, somente a antiga elite e seu “Deus-Rei”, o Dalai Lama.
O Tibete começou a se assemelhar a um Estado por volta do século VII com a adoção de um monarca, uma religião associada ao governo e uma linguagem escrita. Quinhentos anos depois, Genghis Khan e os mongóis conquistaram a China e o Tibete, fundando a dinastia Yuan e aliando-se à seita Gelupga do budismo tibetano, numa relação em que os mongóis ofereciam proteção militar em troca de orientação espiritual. Os monges também criaram o status de Dalai Lama. Conseqüentemente, o Tibete veio a se tornar parte do Estado chinês, embora um estado chinês governado por mongóis.
A dinastia étnica Manchu Qing (1644-1912) incorporou o Tibete à Grande China administrando-o através de um comissariado que, na realidade, raramente se envolvia nos assuntos tibetanos, ocasionalmente enviando exércitos para defendê-lo contra invasões estrangeiras.
No final do século XIX e início do século XX, o Tibete se tornou um joguete entre o imperialismo britânico e russo, culminando com o envio de uma força militar que o colocou sob influência britânica.
Com o colapso da dinastia Qing, em 1912, diversas partes do império chinês, incluindo o Tibete, tornaram-se de fato independentes até 1949. Embora tenha tido todos os atributos de um estado independente (incluindo moeda, exército, relações exteriores e um governo), nunca teve uma independência de jure, pois numerosos tratados internacionais reconheciam apenas a suserania sobre todo o Tibete.
Após a chegada ao poder do Partido Comunista Chinês, um governo central forte foi restabelecido na China, junto com uma determinação de retomar os territórios da antiga dinastia Qing, evoluindo com a integração total do Tibete à China em 1951.
No final de 1956, tibetanos armados emboscaram comboios do exército chinês, com ampla assistência da CIA, que incluía treinamento militar, apoio em bases militares no Nepal e suprimentos jogados de aviões. Enquanto isso, nos EUA a American Society for a Free Ásia (também financiada pela velha CIA) dava publicidade à causa da resistência tibetana, com o irmão mais velho do Dalai Lama, Thubtan Norbu, participando ativamente desta organização.
O outro irmão, Gyalo Thondup, organizava, juntamente com a CIA, operações de inteligência desde o início da década de 50, mais tarde formando unidades de guerrilheiros cujos recrutas eram enviados de pára-quedas ao Tibete (mais de 700 destes vôos foram feitos em 1950, de acordo com os Pentagon Papers). Muitos destes comandos e agentes eram chefes de clãs aristocráticos ou filhos destes. Muitos lamas e membros da elite, bem como do exército tibetano, juntaram-se aos insurgentes, mas a maioria da população não, assegurando assim o seu fracasso (Hugh Deane, “The Cold War in Tibet” – CovertAction Quaterly – winter 1987; à mesma conclusão chegaram Ginsburg e Mathos - “Comunist China and Tibet”, 1964). Logo após, o controle da China era total.
Em 1961 as autoridades chinesas expropriaram as terras dos latifundiários e lamas e as distribuíram aos camponeses. Incentivos à pecuária e à irrigação foram implementados e a introdução de novas variedades de vegetais, trigo e cevada trouxeram benefícios à produção. Escolas, hospitais, estradas, redes de eletricidade e água corrente supriram muitas das deficiências antigas do velho Tibete (Greene, “A Curtain of Ignorance” e A.Tom Grunfeld, “The Making of Modern Tibet”, 1996). Porém, durante a Revolução Cultural, um autêntico genocídio cultural assolou o Tibete, incluindo a destruição de vários templos religiosos, repressão e prisão de dissidentes, com repercussões até hoje.
Muitos afirmam que, antes da invasão chinesa, em 1959, o velho Tibete era um reino orientado espiritualmente, livre do estilo de vida egoísta, do materialismo vazio e dos vícios corruptores das modernas sociedades industriais ocidentais. Um verdadeiro Shangri-la. Nas palavras do atual Dalai Lama: “Desfrutávamos de liberdade e contentamento”. Mas a realidade sugere um quadro um pouco diferente.
Apesar dos livros de James Hilton (Horizonte Perdido) e de Heinrich Harrer (Sete Anos no Tibete) promoverem uma visão romântica do Tibete, este era, em 1940, uma região sem estradas, somente com trilhas para cavalos e praticamente intocada pela industrialização. Os paralelos entre o Tibete e a Europa medieval eram marcantes (A.Tom.Grunfeld – “The Making of Modern Tibet", 1996). Consistia no território de “U”, onde o Dalai Lama dominava, e no território de Tsang, onde mandava o Panchen Lama. Os que clamam pelo “Grande Tibete” referem-se ao Tibete incluindo grandes partes de províncias adjacentes: Sichuan, Yunnan, Gansu e Quinghai (também a Bacia de Tsaidam, rica em petróleo). Abaixo do Dalai Lama havia os membros da aristocracia (proprietários de terras que, em sua maioria, descendiam dos antigos monarcas tibetanos antes da invasão mongol), e a maior parte da população era de servos, com uma pequena parte, cerca de 5%, de escravos da nobreza.
Em seu livro (com prefácio do Dalai Lama) “Tears of Blood – A Cry for Tibet”, Mary Craig descreve que o Tibete “era uma sociedade feudal medieval e, trabalhando para as propriedades do governo, nos latifúndios dos monastérios ou nas terras das duzentas e poucas famílias aristocráticas, o camponês tibetano, inegavelmente, pertencia ao seu senhor. Tinha que produzir uma quantidade de trabalho compulsório em troca de seu pequeno pedaço de terra e dar a maior parte de suas colheitas ao seu senhor, ficando apenas com o mínimo para sua subsistência e de sua família. O senhor (incluindo também os Lamas) não só tinha o direito de exigir as taxas que quisesse, como também de impor punições cruéis para os que não o obedeciam. Pena de morte e amputação de membros eram comuns em algumas regiões”. As mulheres eram consideradas inferiores aos homens e a poliandria e a poligamia eram comuns. O budismo era utilizado pelo Dalai Lama e o Panchen Lama para oprimir os servos. Enquanto isso, o Dalai Lama vivia no palácio Potala, de 14 andares, com 1000 aposentos e seu séquito de escravos.
Antecessores do atual Dalai Lama envolveram-se com amantes, festas e violência. Pelo menos cinco deles foram assassinados e inúmeros outros atos de violência contra outras seitas budistas foram perpretados. Meninos eram retirados de suas famílias e levados aos mosteiros para se tornarem monges. Uma vez lá, não mais saíam. O monge Tashi-Tsering relatou que era comum a criança camponesa ser abusada sexualmente nos monastérios, ele mesmo tendo sido vítima de repetidos abusos, desde os 9 anos (Melvin Goldstein, W.Siebenschuh e Tashi-Tsering, “The Struggle for Modern Tibet”, 1997).
Em 1937, Spencer Chapman visitou o Tibete (citado em Gelder e Gelder, “The Timely Rain: Travels in New Tibet”, 123-125, 1964), observando que “os monges não perdiam tempo pregando ao povo ou educando-o. Os mendigos ao longo das estradas não são nada para os monges. O conhecimento é uma prerrogativa dos monastérios, zelosamente guardado e é usado para aumentar sua influência e riqueza”.
Após o levante de 10 de março de 1959 o Dalai Lama resolve salvar sua atual encarnação fugindo para a Índia (Dharamsala) com a elite aristocrática e religiosa e criando assim um governo no exílio. Este, até pelo menos o início da década de 70, recebeu US$ 1,7 milhões da CIA. O dinheiro era para financiar operações de guerrilha contra os chineses, não obstante a posição de “ativista da não-violência” do Dalai Lama, ele próprio na lista de pagamentos da CIA de 1950 a 1974, recebendo cerca de US$ 15 mil por mês (Michael Backman, “Behind the Dalai Lama´s Holy Cloak”, The Age, May 23, 2007). No início deste século o congresso americano, através do National Endowment for Democracy, continuava a enviar anualmente US$ 2 milhões para a comunidade tibetana no exílio. Além destes fundos, o Dalai Lama receberia dinheiro do financista George Soros, segundo informa Heather Cottin (“George Soros – Imperial Wizard”, CovertAction Quaterly 74, Fall 2002).
Em abril de 1999, juntamente com Margareth Thatcher, o Papa João Paulo II e o presidente George Bush (pai), o Dalai Lama pediu à Inglaterra que não permitisse que o ditador Augusto Pinochet, em visita à Inglaterra, fosse obrigado a ir à Espanha, onde seria julgado por crimes contra a humanidade. Também apoiou a intervenção americana na Iugoslávia e, mais tarde, no Afeganistão, numa atitude muito curiosa para um Prêmio Nobel da Paz. Em relação à guerra do Iraque, foi mais cauteloso: “a guerra do Iraque – é muito cedo para dizer se é certo ou errado” (San Francisco Chronicle, nov. 2005).
Não se pode, no entanto, culpar o atual Dalai Lama pelos abusos do antigo regime tibetano, mesmo porque tinha 25 anos quando foi para o exílio. O que se critica é a mídia ocidental, juntamente com artistas de cinema, cantores etc., que se recusam a enxergar criticamente a figura do Dalai Lama e o budismo, que engendrou, como qualquer outra ditadura religiosa, um regime reacionário e assassino (em 1998, o U.S State Department listou trinta dos grupos extremistas mais perigosos e violentos do mundo; metade deles eram religiosos, incluindo budistas).
Por razões religiosas, muitos tibetanos querem o Dalai Lama de volta ao país, mas parece que poucos desejam um retorno à ordem social que ele representou (“Tibet Caught in China´s Web”, John Pomfret, Washington Post, 23 julho 1999).
É preciso deixar claro que celebrar o fim da teocracia feudal no Tibete não é aplaudir tudo o que os chineses fizeram neste país. Este é um ponto pouco compreendido pelos ocidentais, que sempre viram o Tibete como um Shangri-la.
Se o que os chineses levaram ao Tibete após a invasão foi uma melhora ou um desastre, não é o ponto central aqui. A questão é que tipo de país era o velho Tibete e a suposta natureza idílica espiritual deste velho país antes da invasão.
Podemos advogar uma liberdade religiosa e independência para o novo Tibete sem ter que abraçar a mitologia acerca do velho Tibete. Na verdade, o Tibete nunca foi o Paraíso Perdido. Era uma odiosa teocracia feudal retrógrada e repressiva - muito distante de um Shangri-la.
O mito do Dalai Lama
O texto a seguir é uma colaboração de Antonio Sergio Ferreira Baptista, médico em Joinville (SC).
Com o conflito nas ruas de Lhasa, o Tibete voltou a ser o centro das atenções recentemente. Clamores pela libertação do país, idealizado como um Shangri-la, invadiram a mídia, mas este Tibete ilusório tem pouco a ver com a realidade histórica.
O povo tibetano é apenas uma das 56 minorias existentes na China, onde a maior parte da população é Han. Dentro do Tibete, além dos tibetanos, há outras nacionalidades, como os Moinbas, Lopas, Naxis, Huis, Dengs e Xiaerbas. Claro que só os tibetanos são estrelas em Hollywood, ou melhor, somente a antiga elite e seu “Deus-Rei”, o Dalai Lama.
O Tibete começou a se assemelhar a um Estado por volta do século VII com a adoção de um monarca, uma religião associada ao governo e uma linguagem escrita. Quinhentos anos depois, Genghis Khan e os mongóis conquistaram a China e o Tibete, fundando a dinastia Yuan e aliando-se à seita Gelupga do budismo tibetano, numa relação em que os mongóis ofereciam proteção militar em troca de orientação espiritual. Os monges também criaram o status de Dalai Lama. Conseqüentemente, o Tibete veio a se tornar parte do Estado chinês, embora um estado chinês governado por mongóis.
A dinastia étnica Manchu Qing (1644-1912) incorporou o Tibete à Grande China administrando-o através de um comissariado que, na realidade, raramente se envolvia nos assuntos tibetanos, ocasionalmente enviando exércitos para defendê-lo contra invasões estrangeiras.
No final do século XIX e início do século XX, o Tibete se tornou um joguete entre o imperialismo britânico e russo, culminando com o envio de uma força militar que o colocou sob influência britânica.
Com o colapso da dinastia Qing, em 1912, diversas partes do império chinês, incluindo o Tibete, tornaram-se de fato independentes até 1949. Embora tenha tido todos os atributos de um estado independente (incluindo moeda, exército, relações exteriores e um governo), nunca teve uma independência de jure, pois numerosos tratados internacionais reconheciam apenas a suserania sobre todo o Tibete.
Após a chegada ao poder do Partido Comunista Chinês, um governo central forte foi restabelecido na China, junto com uma determinação de retomar os territórios da antiga dinastia Qing, evoluindo com a integração total do Tibete à China em 1951.
No final de 1956, tibetanos armados emboscaram comboios do exército chinês, com ampla assistência da CIA, que incluía treinamento militar, apoio em bases militares no Nepal e suprimentos jogados de aviões. Enquanto isso, nos EUA a American Society for a Free Ásia (também financiada pela velha CIA) dava publicidade à causa da resistência tibetana, com o irmão mais velho do Dalai Lama, Thubtan Norbu, participando ativamente desta organização.
O outro irmão, Gyalo Thondup, organizava, juntamente com a CIA, operações de inteligência desde o início da década de 50, mais tarde formando unidades de guerrilheiros cujos recrutas eram enviados de pára-quedas ao Tibete (mais de 700 destes vôos foram feitos em 1950, de acordo com os Pentagon Papers). Muitos destes comandos e agentes eram chefes de clãs aristocráticos ou filhos destes. Muitos lamas e membros da elite, bem como do exército tibetano, juntaram-se aos insurgentes, mas a maioria da população não, assegurando assim o seu fracasso (Hugh Deane, “The Cold War in Tibet” – CovertAction Quaterly – winter 1987; à mesma conclusão chegaram Ginsburg e Mathos - “Comunist China and Tibet”, 1964). Logo após, o controle da China era total.
Em 1961 as autoridades chinesas expropriaram as terras dos latifundiários e lamas e as distribuíram aos camponeses. Incentivos à pecuária e à irrigação foram implementados e a introdução de novas variedades de vegetais, trigo e cevada trouxeram benefícios à produção. Escolas, hospitais, estradas, redes de eletricidade e água corrente supriram muitas das deficiências antigas do velho Tibete (Greene, “A Curtain of Ignorance” e A.Tom Grunfeld, “The Making of Modern Tibet”, 1996). Porém, durante a Revolução Cultural, um autêntico genocídio cultural assolou o Tibete, incluindo a destruição de vários templos religiosos, repressão e prisão de dissidentes, com repercussões até hoje.
Muitos afirmam que, antes da invasão chinesa, em 1959, o velho Tibete era um reino orientado espiritualmente, livre do estilo de vida egoísta, do materialismo vazio e dos vícios corruptores das modernas sociedades industriais ocidentais. Um verdadeiro Shangri-la. Nas palavras do atual Dalai Lama: “Desfrutávamos de liberdade e contentamento”. Mas a realidade sugere um quadro um pouco diferente.
Apesar dos livros de James Hilton (Horizonte Perdido) e de Heinrich Harrer (Sete Anos no Tibete) promoverem uma visão romântica do Tibete, este era, em 1940, uma região sem estradas, somente com trilhas para cavalos e praticamente intocada pela industrialização. Os paralelos entre o Tibete e a Europa medieval eram marcantes (A.Tom.Grunfeld – “The Making of Modern Tibet", 1996). Consistia no território de “U”, onde o Dalai Lama dominava, e no território de Tsang, onde mandava o Panchen Lama. Os que clamam pelo “Grande Tibete” referem-se ao Tibete incluindo grandes partes de províncias adjacentes: Sichuan, Yunnan, Gansu e Quinghai (também a Bacia de Tsaidam, rica em petróleo). Abaixo do Dalai Lama havia os membros da aristocracia (proprietários de terras que, em sua maioria, descendiam dos antigos monarcas tibetanos antes da invasão mongol), e a maior parte da população era de servos, com uma pequena parte, cerca de 5%, de escravos da nobreza.
Em seu livro (com prefácio do Dalai Lama) “Tears of Blood – A Cry for Tibet”, Mary Craig descreve que o Tibete “era uma sociedade feudal medieval e, trabalhando para as propriedades do governo, nos latifúndios dos monastérios ou nas terras das duzentas e poucas famílias aristocráticas, o camponês tibetano, inegavelmente, pertencia ao seu senhor. Tinha que produzir uma quantidade de trabalho compulsório em troca de seu pequeno pedaço de terra e dar a maior parte de suas colheitas ao seu senhor, ficando apenas com o mínimo para sua subsistência e de sua família. O senhor (incluindo também os Lamas) não só tinha o direito de exigir as taxas que quisesse, como também de impor punições cruéis para os que não o obedeciam. Pena de morte e amputação de membros eram comuns em algumas regiões”. As mulheres eram consideradas inferiores aos homens e a poliandria e a poligamia eram comuns. O budismo era utilizado pelo Dalai Lama e o Panchen Lama para oprimir os servos. Enquanto isso, o Dalai Lama vivia no palácio Potala, de 14 andares, com 1000 aposentos e seu séquito de escravos.
Antecessores do atual Dalai Lama envolveram-se com amantes, festas e violência. Pelo menos cinco deles foram assassinados e inúmeros outros atos de violência contra outras seitas budistas foram perpretados. Meninos eram retirados de suas famílias e levados aos mosteiros para se tornarem monges. Uma vez lá, não mais saíam. O monge Tashi-Tsering relatou que era comum a criança camponesa ser abusada sexualmente nos monastérios, ele mesmo tendo sido vítima de repetidos abusos, desde os 9 anos (Melvin Goldstein, W.Siebenschuh e Tashi-Tsering, “The Struggle for Modern Tibet”, 1997).
Em 1937, Spencer Chapman visitou o Tibete (citado em Gelder e Gelder, “The Timely Rain: Travels in New Tibet”, 123-125, 1964), observando que “os monges não perdiam tempo pregando ao povo ou educando-o. Os mendigos ao longo das estradas não são nada para os monges. O conhecimento é uma prerrogativa dos monastérios, zelosamente guardado e é usado para aumentar sua influência e riqueza”.
Após o levante de 10 de março de 1959 o Dalai Lama resolve salvar sua atual encarnação fugindo para a Índia (Dharamsala) com a elite aristocrática e religiosa e criando assim um governo no exílio. Este, até pelo menos o início da década de 70, recebeu US$ 1,7 milhões da CIA. O dinheiro era para financiar operações de guerrilha contra os chineses, não obstante a posição de “ativista da não-violência” do Dalai Lama, ele próprio na lista de pagamentos da CIA de 1950 a 1974, recebendo cerca de US$ 15 mil por mês (Michael Backman, “Behind the Dalai Lama´s Holy Cloak”, The Age, May 23, 2007). No início deste século o congresso americano, através do National Endowment for Democracy, continuava a enviar anualmente US$ 2 milhões para a comunidade tibetana no exílio. Além destes fundos, o Dalai Lama receberia dinheiro do financista George Soros, segundo informa Heather Cottin (“George Soros – Imperial Wizard”, CovertAction Quaterly 74, Fall 2002).
Em abril de 1999, juntamente com Margareth Thatcher, o Papa João Paulo II e o presidente George Bush (pai), o Dalai Lama pediu à Inglaterra que não permitisse que o ditador Augusto Pinochet, em visita à Inglaterra, fosse obrigado a ir à Espanha, onde seria julgado por crimes contra a humanidade. Também apoiou a intervenção americana na Iugoslávia e, mais tarde, no Afeganistão, numa atitude muito curiosa para um Prêmio Nobel da Paz. Em relação à guerra do Iraque, foi mais cauteloso: “a guerra do Iraque – é muito cedo para dizer se é certo ou errado” (San Francisco Chronicle, nov. 2005).
Não se pode, no entanto, culpar o atual Dalai Lama pelos abusos do antigo regime tibetano, mesmo porque tinha 25 anos quando foi para o exílio. O que se critica é a mídia ocidental, juntamente com artistas de cinema, cantores etc., que se recusam a enxergar criticamente a figura do Dalai Lama e o budismo, que engendrou, como qualquer outra ditadura religiosa, um regime reacionário e assassino (em 1998, o U.S State Department listou trinta dos grupos extremistas mais perigosos e violentos do mundo; metade deles eram religiosos, incluindo budistas).
Por razões religiosas, muitos tibetanos querem o Dalai Lama de volta ao país, mas parece que poucos desejam um retorno à ordem social que ele representou (“Tibet Caught in China´s Web”, John Pomfret, Washington Post, 23 julho 1999).
É preciso deixar claro que celebrar o fim da teocracia feudal no Tibete não é aplaudir tudo o que os chineses fizeram neste país. Este é um ponto pouco compreendido pelos ocidentais, que sempre viram o Tibete como um Shangri-la.
Se o que os chineses levaram ao Tibete após a invasão foi uma melhora ou um desastre, não é o ponto central aqui. A questão é que tipo de país era o velho Tibete e a suposta natureza idílica espiritual deste velho país antes da invasão.
Podemos advogar uma liberdade religiosa e independência para o novo Tibete sem ter que abraçar a mitologia acerca do velho Tibete. Na verdade, o Tibete nunca foi o Paraíso Perdido. Era uma odiosa teocracia feudal retrógrada e repressiva - muito distante de um Shangri-la.
sábado, março 29, 2008
E os tolos ou ignorantes afirmam que Platao e idealista...irrealista...
“Não tem o povo o hábito invariável de pôr à sua testa um homem cujo poder ele nutre e torna maior? É de seu hábito, concordou. É portanto evidente que, onde quer que o tirano medre, é na raiz deste protetor e não alhures que ele se entronca. É absolutamente evidente. Mas onde começa a transformação do protetor em tirano ? Não é, evidentemente, quando se põe a fazer o que é relatado na fábula do templo de Zeus Liceu, na Arcácia? O que diz a fábula? indagou. Que aquele que provou entranhas humanas, cortadas em postas junto com as de outra vitimas, é inevitavelmente transmudado em lobo. Não ouviste contá-la ? Sim. Do mesmo modo, quando o chefe do povom seguro da obediência absoluta da multidão, não sabe abster-se do sangue dos homens de sua própria tribo, mas, acusando-os injustamente, conforme o processo favorito dos de sua igualha, e arrastando-os perante os tribunais, se mancha de crimes mandando tirar-lhes a vida, quando, com lingua e boca ímpias, prova o sangue de sua raça, exila e mata acenando com a supressão das dívidas e uma nova partilha das terras, então, não deverá um tal homem necessariamente, e como que por uma lei do destino, perecer pela mão de seus inimigos, ou tornar-se tirano, e de homem transformar-se em lobo?” (A República, 8, 565 c - 566 a). Cito na tradução de J. Guinsburg (São Paulo, Perspectiva, 2006), pp. 332-333.
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