quarta-feira, setembro 05, 2007

Reflexões sobre a ‘omertà’ petista-Correio Popular de Campinas 05/09/2007

Correio Popular de Campinas
5/9/2007

Roberto Romano

Reflexões sobre a ‘omertà’ petista

“Ninguém tem mais autoridade moral e ética do que o PT (...) Mesmo que algum companheiro venha a ser condenado, não podemos esmorecer. Não temos o direito de nos sentir derrotados, qualquer que seja a adversidade que enfrentemos. E o mais importante: nenhum petista tem que ter vergonha de defender um companheiro.” (Lula)

Nas palavras do líder, notemos como peculiaridade semântica a insistência no verbo “ter”. Ética e moral são tidas por ele como posse, não como hábitos e valores positivos ou negativos. Quando surgiram as denúncias sobre os crimes petistas, alguns ideólogos petistas forjaram o slogan sobre o “patrimônio ético do PT”. Falta exibir a escritura, passada no Cartório do Padre Eterno. Esta redução de valores ao estatuto de coisas é própria da consciência alienada. Quem leu Marx, sabe que o principal em seu discurso ético é a denúncia da redução do mundo humano ao nível das coisas. O Capital mostra que o sujeito humano, livre por natureza, na ordem capitalista percebe a si mesmo como pura força física, algo “objetivo”.

Contrário a essa redução do ato livre que pressiona a subjetividade, Marx afirma que na sociedade capitalista a consciência se representa como coisa submetida ao tempo e ao espaço. Os produtos do trabalho parecem, então, autônomos, “do mesmo modo como a impressão feita por uma coisa no nervo óptico é percebida não como uma excitação subjetiva do próprio nervo, mas como a forma objetiva de uma coisa exterior ao olho”. Tese de Marx: “A forma mercadoria e a relação de valor dos produtos do trabalho na qual ela se expõe, não têm absolutamente nenhuma conexão com a natureza física da mercadoria e com as relações reificadas (dinglich) que brotam delas. É apenas a relação social definida entre homens que assume, aqui, a forma fantástica de uma relação entre coisas”.

Quando Lula diz que o PT “tem” mais ética do que os não petistas, pensa como se ela fosse uma mercadoria, cuja posse seria garantida para sempre, algo “objetivo” e visível. Mas ética é ato e consciência de valores. E se manifesta em ações corretas ou péssimas. Antes, o PT afirmava: no poder, faria coisas corretas. No palácio, faz coisa péssimas e apela, como sofisma, para o seu desejo ou propaganda pretérita. Não se exige que um presidente de partido socialista leia Marx, ou mesmo que ele possa ler algo. Mas que os seus estafetas filosóficos ignorem um desvio analítico, é grave. Quando Lula proclama a ética e a moral, algo que se oferece apenas na consciência (distante, portanto, do universo fenomênico) como “propriedade” petista, ele pensa (se isto é pensar...) como a consciência alienada que enxerga coisas físicas (passíveis de apropriação no mercado, seja ele político) onde operam nexos axiológicos. Ética e moral jamais podem ser “propriedades” de um grupo. Elas definem padrões de ação, livre ou escrava, nunca passíveis de “entesouramento”. Se pessoas definidas mudam seu modo de agir e dissolvem antigas crenças, trocando-as por outras, desaparece a velha ética, surge outra.

A ética proclamada pelo PT exigia rigor nas coisas públicas, transparência e responsabilidade. A direção do partido manipulou verbas fraudulentamente (com o eufemismo delubiano do “recurso não contabilizado”), agiu em segredo, seus dirigentes e lider dizem “nada saber”. Ética é o complexo - valor e hábito - que se torna uma segunda natureza de quem o assume. Se os valores são negativos e os hábitos péssimos, surge a ética contrária ao coletivo, como na máfia. Ao pedir apoio aos companheiros processados pelo Supremo, o petista mor retoma a ética de sociedades corporativas na qual o princípio da omertà exige absoluta e inquestionada solidariedade grupal, contra o Estado, a sociedade, as leis. Neste ângulo, ninguém no Brasil possui o know-how e a sólida união cúmplice diante da própria delinqüência, do que o PT. Curvo-me: o líder está coberto de razão! PT, saudações.

Roberto Romano é professor de Ética e Filosofia Política na Unicamp.

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