quarta-feira, março 05, 2008

Correio Popular de Campinas 5/3/2008

Fanatismo demagógico

Roberto Romano

Certos analistas indicam que O Príncipe não é novo na sua forma, ele nada mais seria do que adaptação dos antigos Espelhos do Príncipe. Os conteúdos também parecem extraídos daqueles manuais, como nos conselhos sobre as novas conquistas, o modo de administrá-las, os auxiliares a serem ouvidos, a diplomacia, etc. (Lerner, M.: Machiavelli the Realist in De Lamar Jensen (Ed.): Machiavelli: Cynic, Patriot, or Political Scientist?) O escrito rompe, no entanto, com a tradição medieval, porque nele a metafísica e a teologia são postas em segundo plano e são substituídas pela tentativa de expor fatos humanos, em especial sob o ângulo histórico. Segundo Max Lerner, “Maquiavel escreveu uma gramática do poder, não apenas para o século 16, mas para as épocas seguintes”. Em todas as suas páginas, estão contidos imperativos do governo, todos com a marca realista do poder.

Além de O Príncipe, que mais serve como instrumento de parolagem do que para ser meditado, Os Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio definem o campo no qual é possível captar o pensamento de Maquiavel. Ali, fica bem claro o apreço do autor pela república, o respeito pela massa popular na comunidade política, a necessária unidade dos vários elementos que compõem o poder político, condição de sua permanência estável no tempo. Além disso, Maquiavel salienta a relevância dos legisladores que conduzem o coletivo e lhe garantem coesão mínima e alguma estabilidade. Depois, o uso da força militar com mobilização cidadã, para aumentar mais ainda a firmeza interna da comunidade. Last but not least, a importância da religião como elo dos indivíduos, grupos, massas no interior de um país.

Maquiavel sintetiza a nossa política, que não difere das ocorridas no pretérito. A realidade mostra que os homens “na política, negócios ou na vida privada, não agem segundo suas proclamações de virtude; os líderes buscam rudemente o poder e o agarram tenazmente; as massas que devem ser coagidas na ditadura são expostas à adulação ou trapaça na democracia; engodo e virulência existem em todo Estado; enquanto a arte de ser dirigido sempre foi relativamente fácil, a de governar a nós mesmos é monstruosamente difícil”. Lerner resume a “ética na política”: ideais são importantes na vida pública, se forem só normas. Considerados como técnicas para conseguir e conservar o poder, eles são pouco eficientes. O líder bem sucedido opera com matizes do humor coletivo, suspeitas contra as táticas dos adversários, compromissos e concessões. Os profetas da religião aproximam a moral pública dos preceitos éticos. Savonarola, Cromwell, puritanos na Inglaterra ou América, “quando chegam ao poder, aprendem o jogo político”. Tal aprendizado não conduz à democracia: “os imperialismos mais destruidores do mundo elevaram suas preferências ao pináculo dos imperativos morais e trabalham com plena confiança para impor tais imperativos aos outros”. (Lerner)

Sem religião, república ou democracia, a única maneira de impor os imperativos dos que mandam no Brasil é o medo, a pura ameaça, disfarçada quase sempre de bravata. O presidente fornece o exemplo aos sequazes. Prosélitos de ideologias laicas assumem atitudes semelhantes. Gérard Lebrun adverte: “... podemos nos perguntar se a idéia de ‘postulação prática’ e até o próprio conceito de ‘razão prática’ não contém em germe a justificação de muitos fanatismos. O que é um fanatismo, senão o fato de aceitar a contaminação da teoria pelo interesse prático? Se o marxismo pôde ser vivido como fanatismo, é porque deixou interpenetrarem-se conceitos e valores, análises e artigos de fé práticos”. (Passeios ao Léu). É por esse motivo que os militantes petistas e demais autoritários da aposentada esquerda, agora apóiam seu líder quando ele ataca e ameaça o poder Judiciário com palavras vulgares, indignas de um estadista, como o fez na semana passada. É o fanatismo demagógico em marcha. Todo fanatismo só vence caso os que deveriam defender o Estado de direito têm medo. É o que testemunhamos no Brasil. Dizer que os políticos brasileiros são maquiavélicos, insulta o grande escritor político. No máximo, os nossos “governantes” poderiam vestir a fantasia de Maquiavel, para desfilar nos blocos de Joãzinho Trinta.

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