terça-feira, setembro 04, 2007

O ESTADO DE SAO PAULO 02/09/2007

Caderno Aliás
domingo, 2 de setembro de 2007, 00:00 | Versão Impressa

O comissário da falsa dialética

Francisco Foot Hardman* - O Estado de S.Paulo

- O PT, além de novo partido da ordem, tornou-se, em sua retórica de autovitimização, o partido dos desagravos. Na penúltima sexta-feira, além da notícia do rodízio de pizza na noite anterior, confraternização de João Paulo Cunha e camaradas, para firmar protesto contra seu indiciamento pelo STF, realizada em churrascaria paulistana à la argentina (pizza na parrilha parece ser agora o ponto alto de elaboração da nova dialética petista), anunciava-se o intuito do ex-Campo Majoritário, agora rebatizado de Construindo um Novo Brasil (sempre com os velhos métodos e práticas, só para seguir na via dialética), abrir o 3º Congresso da sigla com ato de desagravo, entre outros, a José Dirceu e José Genoino.

É Renan, mártir das vacas murchas, quem imita Dirceu, comissário dos falsos martírios, ou é Dirceu quem imita Renan? Tudo se embaralha. De um lado o aparelho petista semi-estatizado, que já viveu a euforia da alavancagem propiciada pela rede de acumulação primitiva dos chamados núcleos financeiro e publicitário do esquema quadrilheiro, agora se arrasta na inércia de homens-dispositivos afeitos ao discurso defensivo, prenhe de melodramas da Grande Família, mais para agentes otários, truculentos, camundongos de aparelho, que para Valérios e Dudas Mendonças, estes dois, sim, fartos de tudo "que já tiveram que pagar", e das dívidas não contabilizadas, fartos dessa política reduzida a propaganda e mala preta, fartos como seus bolsos. De outro lado, mas na mesma clave política, sobressai o Senado atolado na fantochada sem fim, não só pelas estripulias autocráticas de seu presidente, mas pela conivência intrapares com a mentira, da mais silenciosa à mais histriônica, as manobras rasas do regimento e do não-regimento, o bacharelismo de rábulas da mais velha tradição do Estado patrimonialista, a pura arrogância autista e cínica ante o clamor da opinião pública.

Queixam-se agora mensaleiros de ditadura da mídia. Tentam desqualificar o STF por suspeição no julgamento dos 40 mensaleiros. Nem passava por sua imaginação discursiva questionar a política de comunicação, oligopólica e permeável a negociatas, mas tremendamente eficaz para manter as alianças no Poder Legislativo e entre o Planalto e as oligarquias regionais. Idem, o então presidente da Câmara, João Paulo Cunha, que se valia até de contratos publicitários "experimentais", digamos, em sua ânsia por rápida ascensão no aparelho partidário, de olho numa vaga para candidato ao governo estadual paulista.

Dirceu serviu-se a rodo da mídia sôfrega por narrativas tipo "esta é sua vida" para edificar biografia pontilhada de hiatos e fatos falhos, na pose de grande herói na luta contra a ditadura, ele que sempre sobreviveu, com relativa e crescente comodidade, à sombra de aparelhos, do guerrilheiro ao castrista, do petista ao federal. Setores da esquerda ainda parecem permeáveis a esses rompantes narcisistas de arrabalde. Apaguem os refletores, por segundos, e troquem os personagens. A opereta malandra de Roberto Jefferson, cobra de puro veneno que Dirceu e Lula certo dia creram amansada, também parece se espelhar nesses arroubos de vitimismo, nessa verve de vitupérios assacados contra "forças ocultas", o fantasma de Jânio assombrando o fantasma de Getúlio, porquanto talvez o sonho de consumo do novo PT seja mesmo o PTB. Sem exagero: esse fiapo arruinado da antiga sigla varguista é fiel partido da base governista, antes e pós-mensalão, presidido por Jefferson e contando, entre estrelas adventícias, com o farol da modernidade e ex-caçador de marajás Fernando Collor.

Mas no espaço mágico e descontaminado do 3º Congresso, suarão os derradeiros intelectuais do partido na definição do sempre renascido "socialismo petista" (sic). Poderão recorrer ao "socialismo" do general Abreu e Lima, pernambucano, combatente das forças de Simón Bolívar, que escreveu livro homônimo ainda em 1845 e hoje é uma das referências mais adoradas de Hugo Chávez. Ou então ao "socialismo moreno" do saudoso Brizola. Ou mesmo à constelação de "socialismos e socialistas" já elencada, com fina ironia, por Marx e Engels em seu genial Manifesto Comunista, de 1848. Raras vezes a lógica implacável do auto-engano, com sua ideologia materializada em palavras, gestos e símbolos, terá tido tanta ritualização, no Brasil. Talvez Dirceu e Genoino, entre outros, poderiam propor ato de desagravo ao "socialismo petista", tão enigmático quanto incompreendido neste novo século. Talvez seja isso: trata-se do "socialismo" dos inocentes, sejam os inocentes úteis, sejam os inúteis.

Todos acima de tudo inocentes, como costuma nos advertir, qual missa diária, o presidente Lula, nosso Bonaparte tropical. É bom, sim, que insista. Às vezes as coisas ficam algo confusas, para não dizer desgraçadas, e como lembrou ele próprio em entrevista ao Estado de domingo passado, "qualquer presidente constrói uma base heterogênea por causa da realidade política brasileira". Tem-se, pois, que admitir isso como um dado da natureza. E que nenhuma ação política decidida e séria tenha sido articulada, desde 2003, pelo PT e pelo governo, para mudar drasticamente tal estado de coisas, podemos debitar essa grave lacuna à conspiração da realidade.

Por isso, o bordão: Jader, Maluf, Renan, Jefferson, Zé Dirceu, Gushiken, Palocci, João Cunha e demais vítimas da santa aliança midiático-elitista-natural da "realidade deste país" - alegrai-vos! Associai-vos em desagravos e júbilos e pizzas na parrilha. Juntai-vos em ONG das vítimas cansadas do Ministério Público e da Opinião Pública. Porque afinal garante-nos nosso Guia: todos serão inocentes até que nunca se prove o contrário.

* Francisco Foot Hardman é professor-titular de teoria e história literária no Instituto
de Estudos da Linguagem da Unicamp

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