sexta-feira, junho 15, 2007




Com a promoção post mortem do capitão Lamarca, o governo abriu uma chaga que pode trazer muitas tragédias na vida institucional brasileira. O ato, considerado correto por alguns, hostiliza as Forças Armadas no ponto mais sensível, o definido pela disciplina e pela cadeia de ordens. Promover como foi determinado, um desertor ao posto de coronel, com soldo de general, é quebrar a espinha do ordenamento militar. Uma causa do golpe, em 1964, residiu exatamente neste ponto. Some-se a crise dos controladores de vôo, a promoção que fere os brios castrenses, e outros pontos sensíveis da ordem interna: estão dados os elementos de uma crise diante da qual todas as crises até hoje vividas pelo governo serão pequenas. O PT e seus aliados esquecem a prudência, tanto no discurso (as barbaridades ditas ajudam a desgastar o respeito à institucionalidade) quanto na prática. A prudência é representada, no Renascimento, com uma figura tripla que tem um lado ostentando a face de um jovem, outro com a face de um velho e no centro, a face de um homem maduro. Presente - pretétito- futuro: os três rostos mostram o quanto é difícil governar, porque o instante atual sempre é voltado para os três pontos do tempo. Se algo for feito agora, para retomar o passado, certamente o presente e o futuro evidenciarão os frutos em atos consequentes.

Repetir e piorar o erro é mais do que imprudência: é loucura. O governo e seus apoiadores, no caso Lamarca, brincam com fogo e terão problemas gravissimos.

Pessoalmente, considero a promoção e a quase santificação de Lamarca um atentado à história e aos pontos mais comezinhos da ética. O terrorismo não pode ser sacralizado em nenhuma situação, porque se for posto como exemplo, frutifica, sempre, na forma de violência covarde contra civís.

Roberto Romano


Segue abaixo um trecho de artigo, publicado em livro recente, Ponta de Lança, que editei pela Lazuli Ed. Nele, deixo claro o significado da ordem disciplinada para os militares.
RR

"Elias Canetti fornece uma chave antropológica para a compreensão das Forças Armadas em 1964. A sentinela que permanece imóvel é o melhor exemplo da constituição psíquica do soldado. Os motivos habituais de ação, como os desejos, o temor, a inquietude que constituem a vida humana, são reprimidos dentro dele. Todo ato seu deve estar sancionado por uma ordem. O momento vital na existência de um militar é o da posição atenta diante do superior. A educação do soldado começa no instante em que lhe são proibidas muito mais coisas do que aos demais homens. O aspecto anguloso do soldado mostra que ele se adaptou aos muros, sendo um prisioneiro satisfeito. Para ele, a ordem tem valor supremo. Integra a sua formação que ele aprenda a obedecer ordens sozinho ou na companhia de outros. Os exercícios o habituam a movimentos executados com os demais. Todos devem realizá-los de modo absolutamente idêntico. O indivíduo torna-se igual aos outros. É a mesma ordem, pouco importando que seja apenas umq ue a recebe, ou todos. O uniforme, além das outras funções bélicas, evidencia a perfeita igualdade de todos na obediência às ordens.

A disciplina define o exército. Trata-se de uma dupla disciplina. A declarada é a ordem, tal como descrita acima. A outra é a promoção. Esta última corresponde à capacidade de um militar para ser aguilhoado internamente pela ordem. Para cada ordem atualizada, fica um espinho dentro dele. Se é soldado raso, ele não pode desfazer-se desses espinhos, aninhados em seu corpo e alma. Ele obedece e se torna cada vez mais rígido em sua obediência maquinal. Para sair desse estado, só com a promoção. Quando promovido, ele se desfaz —nos outros— dos seus aguilhões/ordens. A disciplina secreta consiste no uso dos aguilhões/ordens armazenados.

Essa disciplina responde pelo fato de os exércitos mais poderosos do mundo terem seguido ordens de partidos totalitários, pelo menos até que vislumbrassem a derrota, sem pestanejar. “Estou cumprindo ordens”. Sem tal frase, inexistiriam o fascismo, o nazismo, o stalinismo. O Alto Comando é o que menos ordens recebe, mas mesmo assim ele as recebe de quem possui autoridade para tal. Essa cadeia verticalizada de obediência, no caso dos soldados rasos, só explode nas situações de guerra onde o inimigo é disseminado, como nas guerras de guerrilha. Nessas horas a solidariedade horizontal conta mais do que as ordens vindas de cima. Há um bom livro de David Hansen, The Western Way of War: Infantry Battle in Classical Greece, que evidencia esse traço.

Na vida comum, quando não há guerrilha do inimigo externo ou interno, o exército segue a disciplina e a ordem das promoções. Para que ambas existam é preciso que a hierarquia e o próprio instituto militar sobrevivam. É absurdo para um soldado que cumpriu ordens a vida toda e subiu até o posto de coronel ou general de brigada, imaginar que suas próprias ordens não serão obedecidas. Nesse caso, mesmo que o Alto Comando permita a “insubordinação” e mesmo que o comandante supremo —o Chefe de Estado— assuma uma suposta “abertura democrática” face aos exército, quebrando a ordem rígida e a disciplina, eles serão desobedecidos, numa suprema tentativa de restaurar a ordem comum, com o golpe de Estado.

No Brasil em 1964, unidos à inquietude das altas hierarquias religiosas e à insubornição ao governo civil e às angústias diante das movimentações de massas na sociedade e nos quartéis, os militares seguiram quem lhes prometia restaurar a ordem e manter a carreira, a promoção. Quando a sociedade no seu todo —por suas lideranças— não sente-se ameaçada, o ato dos militares não encontra terreno fértil, mesmo dentro do exército. Lembremos, no início da redemocratização espanhola após a ditadura franquista, a tentativa de golpe em que os protagonistas ficaram sozinhos com seus revólveres no Parlamento ameaçado. Recordamos aquela situação tragicômica, com os políticos agachados e os golpistas a gritar frases desconexas.

Um golpe militar ocorre quando, às tensões externas, somam-se a angústia e as incertezas internas de manter tôda uma existência baseada na disciplina, na hierarquia das ordens, na carreira e na promoção. Foram decisivos o pânico e a insegurança sentidos nas duas maiores instituições da ordem no país, a espiritual, a Igreja Católica, e as Forças Armadas, com seu medo de se fragmentarem, perdendo-se irremediavelmente.

(A missa negra de 1964, no livro de Roberto Romano Ponta de Lança. Ed. Lazuli, Sãõ Paulo, 2006).

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