sábado, junho 23, 2007

Um pequena discordancia...

“Uma sociedade de ovelhas costuma dar lugar a um Estado de lobos”. José Manuel Moreira, em artigo publicado no Blog Pérolas, de Alvaro Caputo.

Comentário:

Tenho dúvidas sobre a frase acima. Um Estado de lobos reproduz uma sociedade de lobos, é o meu sentimento. E nisto estou com a mais importante pensador ético e político do Ocidente, Platão. O filósofo, na República, mostra que a democracia sem freios, na qual a lei é desprezada, resulta em tirania em ordem direta. Se nas ruas de Atenas os cavalos eram livres, e os transeuntes não tinham direitos (basta ler a República na análise do regime democrático), nas ruas brasileiras os cavalos que dirigem muitos cavalos no motor agem de modo idêntico. São tiranos que matam no trânsito, roubam nos impostos, acham normal passar por cima das leis. E merecem, portanto, um governo tirânico, mesmo porque nele votam imaginando vantagens. Votaram em todos os tiranetes do século 20 e 21. Até Lulla, que antes desprezavam, mereceu duas vezes o voto de semelhantes lobos.

Mas falamos de uma raça peculiar de lobos, os domesticados pelos 500 anos de Casa Grande. São lobos covardes que bajulam os poderosos e pisam nos humildes. Lobos sarnentos, desdentados, mas sempre capazes de surpreender as vítimas, pela astúcia.

Sociedade brasileira: teu nome é vergonha e decrepitude.

Hoje à tarde, por volta de 16, 30 estava eu na fila para ingresso no estacionamento com manobrista do Shopping Iguatemi, da Av. Faria Lima, em São Paulo. O movimento era grande, de modo que a espera na fila se prolongava. De repente o carro que estava na traseira do meu arranca, com perigo de vida para crianças, adultos, velhos, manobristas e gente rica (não importa a classe no momento) e passa para o primeiro lugar da fila. Não pude ir atrás do calhorda brasileiro, porque o meu carro era o quarto na fila. Dada a distância, também não pude ver o número da chapa. Detalhe: o manobrista que passava pelo meu carro, apenas disse, desconsolado: "o senhor vê como estas pessoas fazem?". Perguntei se era frequente o comportamento canalha. "Infelizmente, senhor, é muito comum".

Na escada rolante do mesmo Shopping, no mesmo dia, um rapagão sarado joga sua bolsa de plástico, cheia de jeans, etc., contra minha mulher. Pede "desculpas", rindo com deboche, pouco se importando com o fato de uma pessoa ficar desequilibrada em escada rolante. Nenhum gesto de ajuda, só o riso podre enquanto ela se equilibrava a duras penas. O esporte do f.d.p. é empurrar, e rir como hiena.

E assim prossegue a crônica das "ovelhas" do Brasil. Na verdade, a maior parte delas se conforma nos aeroportos, por cumplicidade : são apoiadoras de Marta Suplicy e quejandos.

Sociedade brasileira: teu nome é vergonha e decrepitude.

Teu nome é fascismo.

Roberto Romano
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Republiquei neste Blog, tempos atrás, uma palestra em curso de Educação para a Cidadania, ocorrido no Largo de São Francisco, nas Arcadas, depois impresso pela Secretaria da Justiça de São Paulo. Um trecho é particularmente providencial, penso. E o retomo aqui:


"Permitam-me recordar algumas passagens platônicas, porque elas inserem-se diretamente no tema "educação e cidadania". No livro VIII da República, nas alturas das páginas 562, Platão descreve os costumes e o ensino na polis democrática. Afirma ter sido a cobiça de dinheiro e a negligência de outros elementos políticos e educativos a desgraça do governo anterior, o mando oligárquico. Agora, pergunta Sócrates, "porventura não é a voracidade daquilo que a democracia assinala como o bem supremo a causa da sua dissolução? De qual bem falamos? Da liberdade". É o desejo deste bem e a negligência do resto que faz mudar tal forma de governo, abrindo caminho para os tiranos. No trato democrático não se misturam com prudência água e vinho, dando-se uma bebida muito forte ao povo. Este, enternecido e embriagado de licença, diz que "servil" é quem obedece os magistrados. Neste regime, são engrandecidos e benditos os "governantes que parecem governados, e os governados que parecem governantes". Temos um nome para este parecer e não ser: demagogia. Permitam-me um ligeiro anacronismo. Ouvi no horário eleitoral "gratuito" um candidato a deputado berrando: "vocês são os patrões, nós os empregados". Conhecemos os costumes destes "empregados" quando passam os pleitos, sentimos sua arrogância, e corremos, como o fez Maquiavel, rumo à biblioteca, para ler Platão.

A licença demagógica invade todos os recantos da polis. Platão diz que tal atitude chega às casas particulares e atinge os animais domésticos. Nesta democracia, "o pai habitua-se a ter medo dos filhos, desejando ser igual a eles, o filho a ser igual ao pai, sem ter respeito ou receio dos pais, a fim de ser livre". Em tal regime, "o professor teme e lisonjeia os discípulos, e estes têm os mestres em pouca conta; outro tanto se passa com os preceptores. No conjunto, os jovens imitam os mais velhos, e competem com eles em palavras e em atos; ao passo que os anciãos condescendem com os novos, enchem-se de vivacidade e espírito, a imitar os jovens, a fim de não parecerem aborrecidos e autoritários". Num regime semelhante, a liberdade é tão ampla, "que as cadelas, conforme o provérbio, são como as donas e também os cavalos e burros andam pelas ruas, acostumados à uma liberdade completa e altiva, chocando-se sempre contra quem vier em sentido contrário, a menos que saia do caminho; e tudo o mais é assim repleto de liberdade".

Termina o arrazoado platônico: "A resultante de todos esses males é tornar a alma dos cidadãos tão melindrosa que, se alguém lhes ordena um mínimo de responsabilidade, eles se agastam e não a suportam; acabam por não se importar nada com leis escritas ou não escritas (...) a fim de que de modo algum tenham quem seja senhor deles". Eis, afirma o filósofo, "o belo e soberbo começo de onde nasce a tirania (...) O excesso costuma ser respondido pela mudança radical, no sentido oposto, quer nas estações do ano, quer nas plantas, quer nos corpos, e não menos nos Estados" (1)

Não há muito do que rir nesse retrato da democracia ateniense, feito por Platão. A lisonja, base das relações inter-pessoais também possibilita, no Brasil, a imitação recíproca de governantes e governados, uns vendo os outros enquanto modelos de esperteza . Demagogia, falta de respeito pelas leis, tudo isto integra nossa vida política e educacional. Docentes há que afirmam "aprender com os alunos", deles recebendo "lições de sabedoria". Na "boa" sociedade, mulheres enricadas julgam-se livres quando exibem suas celulites durante o carnaval, nas televisões, servindo como escravas da vista e do erotismo alheios, além de proporcionarem lucro aos anunciantes de cerveja, etc.

Mas não só de "colunáveis" vive a polis licenciosa. Ela também suporta burros que atropelam os passantes. Se fizermos uma pequena alteração no texto platônico, onde lemos "burros", podemos enxergar espécimes da atualidade brasileira, justificando aquela imagem. O trânsito nacional está repleto de asnos no volante.Todos imaginam que não devem nem precisam obedecer as leis. A violência é maior se o idiota (no sentido grego, o que só enxerga a si mesmo) está dentro de um automóvel importado ou caro. Os anúncios criminosos são explícitos, como o que declara: "Se você enxergar este logotipo, passe para a direita". Trata-se de um incitamento irresponsável à velocidade, empurrando aço contra a carne humana. E ficam impunes os trefegos canalhas da propaganda, e ficam impunes os por eles persuadidos. Na Unicamp, foi preciso colocar barras de ferro nas calçadas porque professores, funcionários, alunos, sobre elas estacionavam seus automóveis, impedindo mesmo a entrada para a Biblioteca Central da universidade. O número de atropelamentos no campus é assustador.

No diálogo Gorgias, Platão indica que a artimanha lisonjeira (e a propaganda é apenas um de seus casos) oculta-se sob uma arte efetiva. Assim, sob a medicina, surge a cozinha "que faz cara de saber quais são, para o corpo, os melhores alimentos. Se, por acaso, diante de um júri de crianças, for estabelecida a competição entre um cozinheiro e um médico, para saber quem dos dois, médico ou cozinheiro, tem competência sobre os alimentos úteis ou nocivos: o médico deveria, desde o começo, deixar-se morrer de fome!" (2).

O bajulador assume aparências de fala amiga, mas o discurso veraz exige disciplina, sobretudo na amizade. Quem lisonjeia, deixa os amigos na hora negra, toda pessoa franca enfrenta o próprio amigo, para seu bem, nunca o abandonando. A lisonja acostuma o corpo e a alma do estudante aos prazeres, o transforma em ser ineducável para a cidade. Certos indivíduos resistem, desde o nascimento, à educação para a cidadania. Como grãos duros, diz o filósofo, eles não amolecem na panela do ensino (Leis, 853 d, 880 e). Do mesmo modo que não se deixa "cozinhar" pela educação, um homem assim não se submete às leis, nelas ele não se funde.

1. República, trad. Maria Helena da Rocha Pereira, Lisboa, Gulbenkian, 1980.

2. Gorgias, 464 c-e; Trad. francesa de Robin, L. Pleiade, T. I"


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Comentário 2:

Peço desculpas aos defensores da "sociedade coitadinha" e do Estado feroz. A ferocidade nasce de algum lugar e tal espaço é social. O pai que acha engraçado o filhote que põe a mão na comida do buffet (ontem mesmo, no restaurante Viena do Iguatemi, testemunhei "anjinhos" fazendo isto e o pai ria às bandeiras despregadas, até que humilde profissional do restaurante disse a um dos filhotes do tirano : "não é permitido colocar a mão na comida, meu bem". A cara de raiva da criança só foi menos violenta (e as palavras, idem) do que a de seu pai.

Entre as vítimas do apagão aéreo, bem como do apagão na força elétrica na era FHC, existem pessoas civilizadas e democráticas que não merecem o que recebem em troca dos impostos.

Mas a singular classe média e rica brasileira, mimetizada pelos pobres (este traço é lancinante), tem na alma a protoforma do fascismo. Repressão? Para os de baixo apenas. Disciplina? Para os de baixo apenas. Honestidade? Para os de baixo apenas. Bons modos? Para os debaixo apenas. Entrar na fila? Para os tolos apenas.

Tanto é verdade que, ao "subir na vida", mesmo o mais grosseiro petista sindical passa a ser visto, entre os enricados brasílicos, com admiração pelos seus ternos, carros, etc. Em dois restaurantes paulistas, nos quais os donos bradam aos céus contra o império do PT, vi com estes olhos mortais os mesmos donos, maîtres e quejando em plena bajulação dos grossos petistas, os quais, diga-se de passagem, tomam champanhe com lingüiça.

Hipocrisia é pouco. É possível e lícito receber com civilizade, na própria casa ou restaurante, pessoas que se odeia.
Daí aos cordiais tapinhas nas costas, os murmúrios nos ouvidos, as mãos que agarram os braços do bajulado, os sorrisos que beiram ao proxenetismo.... Um destes proprietários conduziu a hipocrisia ao máximo: fez os rapapés, a moganga e o tagaté, as zumbaias numa sala, mas despejou seu nojo em outra, onde se encontravam adversários do petismo.

Este é o comportamento dos escravos, muito comum no Brasil, terra da Casa Grande ou da Senzala. E todo hóspede da Casa Grande tem o seu dia de Senzala, como é o caso atual dos aeroportos.

E chega, que o dia está lindo.

Roberto Romano

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