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quinta-feira, julho 31, 2008

Sujou! Mas só para os outros

Flávio Freire
O Globo
31/7/2008

Especialistas condenam atitude como a de Kassab, que usou lista da AMB... até ser incluído

Um dia depois de ter seu nome incluído na chamada "lista suja" da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB), o prefeito candidato à reeleição em São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), teve de retirar de seu site de campanha a reprodução de reportagens que tratavam da inclusão, dias antes, de seus adversários Marta Suplicy (PT) e Paulo Maluf (PP) na mesma lista. Os três, agora, estão na relação de 16 candidatos a prefeito nas capitais que respondem a processos na Justiça. Até então, aliados de Kassab espalhavam cartazes pela cidade com a frase "Sujou" contra Marta e Maluf. Essa estratégia de Kassab de que só o telhado dos outros merece pedrada tem se repetido em outras campanhas e foi condenada por especialistas em ética e cientistas políticos.

- Foi decisão taticamente equivocada cobrar dos adversários sem observar se também poderia responder por algum problema. Mas esse é o oportunismo que impera na política. Quando chega a hora de se aproveitar, ninguém tem escrúpulos - diz Claudio Abramo, diretor da ONG Transparência Brasil, para quem faltou prudência dos assessores de Kassab, que não o aconselharam a ficar quieto.

Com a ressalva de que não concorda com a interferência da magistratura nos assuntos relacionados à política, e do perigo de uma condenação sem julgamento, o professor de Filosofia e Ética da Unicamp Roberto Romano disse que a iniciativa do prefeito mostra que a política é, essencialmente, muito mais moralista que moral.

- Tem sempre os encarnadores da moral que, na verdade, são santos do pau oco. Vimos o que aconteceu com Fernando Collor, Jânio Quadros e com o PT, que pregou a ética por 20 anos e hoje é isso aí - disse ele.

Para petista, lista é equivocada

Visivelmente incomodado com a inclusão de seu nome na chamada "lista suja", Kassab anunciou de manhã que não mudaria um milímetro sequer de sua estratégia de campanha, e que manteria no site de sua campanha todas as referências feitas a Marta e a Maluf pela AMB. Chegou a dizer que não se importaria de divulgar em seu site a inclusão de seu próprio nome, mas "para que pessoas saibam que eu fui absolvido".

Romano evocou frase do filósofo francês Denis Diderot para explicar esse tipo de comportamento na política: "Sorvemos a grandes goles a mentira que nos adula e a gota-a-gota a verdade que nos é amarga".

Sobre a possibilidade de divulgar a informação sobre sua inclusão na lista, ainda de manhã, Kassab disse que o eleitor tem de ser informado sobre sua absolvição no processo em que deu anuência para o então prefeito, Celso Pitta, usar dinheiro público para se defender de denúncias provocadas pela CPI dos Títulos Precatórios. Kassab foi secretário de Planejamento na gestão de Pitta. Embora a 10ª Vara da Fazenda Pública tenha considerado a ação improcedente, o Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo informou que o processo continua em andamento por conta do recurso impetrado pelo Ministério Público de São Paulo.

De manhã, o prefeito procurou minimizar o assunto:

- Vejo com muita naturalidade, tenho respeito. Mas, a partir do momento em que a AMB faz a lista, é importante que as pessoas identifiquem o que é o caso, e, no meu caso, fui absolvido por unanimidade - disse ele, depois de visitar instalações da biblioteca Mário de Andrade, que passa por reformas.

A inclusão do nome de Kassab na relação da AMB foi a pauta da campanha de seus dois principais adversários. Para o tucano Geraldo Alckmin, a transparência é importante para a política.

- Eu não mudo nada do que falei anteriormente (quando foram incluídos os nomes de Marta e Maluf). Acho que tem que ter transparência absoluta. O que é importante é que haja ressalvas, se tem ou não recurso, se é ou não em última instância. Mas cabe à AMB estabelecer os critérios - disse Alckmin, durante corpo-a-corpo por ruas do Brás.

Já a campanha de Marta Suplicy procurou desqualificar a "lista suja" em que a candidata também aparece. O coordenador da campanha, Carlos Zaratini, disse que a associação está dando o mesmo peso para pessoas que enfrentam situações distintas no Judiciário.

- Essa lista é equivocada porque coloca pessoas sem condenação no mesmo patamar de quem está condenado, ou seja, não tem critério. E isso só fortalece a idéia de que se trata de uma lista com fins políticos - disse ele, para quem os candidatos devem ser julgados pelo povo, nas urnas.

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