quarta-feira, fevereiro 13, 2008

COMENTÁRIO:
ARTIGO DEDICADO AO AMIGO ROQUE SPONHOLZ.

RR



CORREIO POPULAR-CAMPINAS - 13/2/2008


Crime e cumplicidade

Roberto Romano

Elias Canetti enuncia que o grande escritor deixa seus textos como alimento espiritual da humanidade. O artesão da palavra é diferente dos poderosos que “arrastam consigo para a morte tudo o que os cerca”. Os donos do Estado “matam em vida, matam na morte, um séqüito de mortos os acompanha para o além”. Hitler, Stalin, Mao, Ceaucescu, Getúlio Vargas, Peron, Franco, Salazar, Pinochet, Napoleão, Mussolini, Bokassa, Sadam Hussein (a lista é indefinida, na espera de Fidel Castro) seguiram para o nada e arrastaram consigo milhões de inocentes ou nem tanto inocentes, pois os liderados, por ideologia ou religião, partilham suas culpas. O líder nada pode sem a massa que o sustenta. Dos comandados, uns são honestos e duros, aplicam com zelo as ordens do poderoso. No caso totalitário, são eles os piores carrascos. Por ideologia, matam e guardam a consciência pura. Os crimes contra os judeus foram cometidos por gente assim. Eles acreditavam no Füher e nas doutrinas genocidas reunidas em Minha Luta. Os que vigiavam os campos de concentração na URSS, em boa parte acreditaram no “Grande Pai dos Povos”. Assassinos morrem, mas deixam sementes malditas. O nazismo anti-semita está vivo em países “civilizados” ou retrógrados como o Brasil. Muita gente ainda é nutrida por doutrinas racistas. Mas também noções ideológicas do lado político esquerdo estão acesas, como brasas, em cabeças dominadas pelo poder sem peias éticas. Tais mentes apóiam todo tipo de violência, na tarefa de manter e expandir um partido, facção ou seita.

Depois do servilismo voluntário, vem a mera cumplicidade covarde dos que não aceitam idéias genocidas e não reúnem coragem para denunciar os poderosos. Eles caminham para a morte, presos à pavorosa experiência do autodesprezo, simulam obediência ao tirano, mas não fogem da consciência que os acusa. Claude Lefort escreveu passagens candentes sobre as duas servidões em Um homem incômodo, reflexões sobre o Arquipélago Gulag (ainda não traduzido no Brasil, para nossa tristeza).

Deixemos os vermes humanos, escutemos as considerações de Canetti sobre Stendhal: quem abre O Vermelho e o Negro encontra o autor “com tudo o que o rodeava (...) Assim, os mortos se oferecem aos vivos como o mais nobre de todos os alimentos. Sua imortalidade acaba sendo proveitosa para os vivos; nesta reversão da oferenda aos mortos, todos são beneficiados. A sobrevivência perdeu seus aspectos negativos e o reino da inimizade chega ao fim”. Algo parecido ocorre ao percorrermos os textos de Machado de Assis, Graciliano Ramos, Drummond de Andrade, Padre Vieira, Pedro Nava, Haroldo de Campos e outros geradores de nossa língua. Raros estiletes literários assumirão sua herança. Ao abrir os livros de Eustáquio Gomes, sinto que ele é candidato à imortalidade (especialmente se fugir da mansão que alberga poderosos medíocres, de Getúlio Vargas a José Sarney).

Entre os escritores que nutrem os vivos, um dos mais ricos é Maquiavel. Quem se atormenta com a miséria política brasileira, sobretudo em tempos de cartões corporativos, ganha ao meditar os capítulos 40 a 45 (Livro I) dos Discursos sobre a primeira Década de Tito Livio. Como atrativo, cito alguns deles: “É imprudente e inútil passar sem gradação e saltar da modéstia ao orgulho, da suavidade à crueldade”; “O quanto os homens podem facilmente se corromper”; “É péssimo exemplo não observar uma lei, sobretudo quando se trata dos que a fizeram, nada é mais perigoso para os governantes do que reabrir feridas impostas ao povo”. Leitura necessária para quem que manda ou obedece. Os primeiros podem mudar suas atitudes, os segundos tomam ciência do que fazer quando os dirigentes erram por ignorância, orgulho ou sede de poder. Quem, na Alemanha de Hitler, sabia dos campos de extermínio (e falamos da maioria do povo alemão) e nada fez, limitando-se ao lamento “no coração”, ajudou o genocídio. Quem, no Brasil de políticos improbos, tem notícia dos crimes contra o erário e se cala ou se limita a sentenciar tolamente contra “os políticos corruptos”, na verdade é comparsa do roubo. E todos, se nada for feito para mudar o rumo das coisas, serão cúmplices.

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