domingo, fevereiro 10, 2008


VEJA Edição 1963 . 5 de julho de 2006

"Ideologia emburrece"

A filósofa diz que Lula age como um
tirano, afirma que Alckmin foi escolhido
para perder e denuncia o oportunismo
de intelectuais de esquerda



Veja – Na sua opinião, quais as chances de o candidato tucano, Geraldo Alckmin, vencer a eleição?

Maria Sylvia – Eu sempre imaginei que havia algo por trás dessa escolha de Alckmin. Por que a opção por uma pessoa tão inexpressiva – sem carisma, sem ligações importantes em lugar nenhum – para enfrentar um homem como Lula? Hoje está na cara. Alckmin foi escolhido para perder.

Veja – Como assim?

Maria Sylvia – Aécio (Neves, governador de Minas Gerais) e Tasso (Jereissati, presidente do PSDB) escolheram alguém para ser queimado. O projeto do PSDB é para 2010. As chances de Alckmin são muito pequenas porque, inclusive, o tucanato não vai se empenhar. Diz-se que Lula não tem herdeiros, daí o "Lulécio", o Lula com Aécio. Meu marido (o filósofo Roberto Romano) tem uma expressão muito adequada. Afirma que os tucanos são primos do PT e que, no futuro, vão se reunir em família e dividir o bolo. Acho que haverá um ajuntamento entre Lula e esses dirigentes mais novos, como Aécio. O único problema é o PMDB, um partido muito forte e oligárquico. O Brasil é assim: de um lado, a força do governo federal; de outro, o poder das oligarquias regionais. E quem congrega essas oligarquias é o PMDB.

Bem, você leu esta entrevista. Talvez tenha se esquecido do trecho acima. A posição que nela fica evidente, valeu ao casal muitas calúnias de ambos os lados, petistas e tucanos (sem falar nos auxiliares das referidas igrejas políticas), valeu muitos "desconvites" e afastamentos (a decretação silenciosa de persona non grata contra mim, na Folha, é apenas um episódio menor no processo), valeu cortes de bolsas de estudos para meus alunos e para mim, valeu o afastamento de "amigos" (alguns com mais de 40 anos de "amizade"), etc. E o que dissemos no período? Algo espantoso, terrível, criminoso? Não. Apenas indicamos aos incautos (os eleitores domados por Duda Mendonça e quejandos) que existe um vínculo familiar entre tucanos e petistas. E quando se fala de elos assim, é-se obrigado a ir aos "mores", à ética. E o costume familiar, além da arrogância e desprezo por quem ousa discordar dos oráculos sagrados, é imaginar-se acima do bem e do mal, intangível, invisível. Tais hábitos, no entanto, cedo ou tarde causam estragos mais evidentes à vida pública. E nesta hora, as acusações mútuas servem apenas para camuflar a identidade fundamental, que deixa de ser estabelecida em termos doutrinários (muitos no PT e no PSDB partlham uma educação estalinista, católica conservadora, católica "progressista", etc) para se pautar pela identidade com as oligarquias partidárias nacionais. Entre elas, a que se acolhe sob o nome de PMDB.

Chega de falar do que passamos nas mãos dos primos e aliados. Vejam o que diz Eliane Cantanhede hoje, em sua crônica da página 2 (Folha). Analisem o que esta jornalista brilhante escreve, comparem com o que é dito na entrevista da Veja, em outra entrevista na Veja comigo, e avaliem se merecemos o silêncio, os cortes, a perseguição, as calúnias. Se julgarem que o rol de censuras é merecido, permitam-me a sincerida máxima e perdoem a justificada bitterness : vocês merecem os primos!

Roberto Romano


FOLHA OPINIÃO

São Paulo, domingo, 10 de fevereiro de 2008

ELIANE CANTANHÊDE

Da tapioca à pizza


BRASÍLIA - Os R$ 108 milhões dos cartões do governo Serra em 2007 são o Eduardo Azeredo da crise da tapioca. Quando os tucanos mais comemoravam o mensalão, Azeredo entrou na roda e estragou-lhes a festa. Quando começavam a brindar a tapiocaria, vem a água fria dos cartões de Serra.

Quanto mais se acusam, mais tucanos e petistas se parecem. Os dois lados blefam ao alardear a criação de uma CPI em Brasília e outra em São Paulo para investigar uso do dinheiro público em restaurantes caros e baratos, lojas de doces e de jóias, hotéis e carros alugados em feriados. Uma orgia.

A CPI e a crise tendem a evoluir de tapioca para pizza e emperram três movimentos que tucanos e petistas vinham ensaiando antes e durante o Carnaval: Serra e os filhos de Lula aos sorrisos num camarote no Rio de Janeiro; conversas mais do que amigáveis entre Aécio Neves e Fernando Pimentel para uma candidatura única em Belo Horizonte; os acertos Lula-Serra-Aécio para acabar com a reeleição e rever o cronograma.

Como pano de fundo, a entrevista de José Dirceu à revista "Piauí", em que ele releva antigas e sólidas divergências e elogia Serra como homem público e presidenciável. Neste momento, Dirceu deixou de lado o consultor e se reassumiu como um dos principais quadros políticos do país. Não foi descuido.

Os petistas e tucanos de internet, essas novas categorias do cenário político, irresponsáveis e agressivas, ficariam surpresíssimos se ouvissem a troca de elogios que Serra e ilustres lulistas trocam fora dos holofotes. Mas não seguiriam. Aliás, nem compreenderiam.

Qualquer tentativa de pensar grande, seja de Lula, seja de Serra, seja de Aécio, acaba indo de roldão na avalanche de pequenos e grandes erros comuns aos dois lados. O dinheiro público vai para o ralo, e a política vai junto. Certamente porque o poder é deletério e talvez porque falte grandeza ao ser humano.

elianec@uol.com.br




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